Capítulo 8 - Reações

Comentários

  1. Shapin, Steven. 1991. "A scholar and a gentleman": The problematic identity of the scientific practitioner in early modern England. History of Science 29: 279-327.
    Fiquei pensando onde eu estava em 1991, onde estava Shapin e quem eram os cientistas de 1991. |Um texto de 1991. Era um momento em que se repensava a forma de escrever a história da ciência. Shapin, entre outros cientistas, se esforçava em tentar "reformar" os estudos sociais da ciência. Neste capítulo Shapin traz, como não poderia deixar de ser, esta forma de repensar a escrita da história da ciência, apresentando as definições provisórias de scholar e de cavalheiro. Shapin apresenta a construção destas definições provisórias através de suas controvérsias, dentro de um contexto, de suas construções e dos processos de mudanças ao longo de um período. Shapin vai descortinando, a luz de seu olhar, a influência social nas construções e nos vai nos dando sua visão contra a divisão ontológica estabelecida nos conceitos de internalismo e externalismo, colocando na berlinda o modelo até então hegemônico de que existira uma fronteira entre o mundo externo e interno do fazer ciência. Shapin conseguiu me fazer ver o quanto interessante é a pesquisa das controvérsias para a construção dos fatos. As polêmicas, interferências sociais, institucionais e, por que não dizer, cognitivas que, justapostas, vão estabilizando um fato e quanto estas mesmas justaposições levam a uma situação provisória.

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  2. O texto deste capítulo não foi um texto simples ou breve de ser lido. Por muitos momentos tive a impressão de que Shapin dava voltas no mesmo lugar para conseguir reforçar ainda mais suas visões das distinções e relações entre a imagem de um cavaleiro e um scholar, porém isso não diminuiu em si meu fascínio pelo tema. E para me entreter durante tais divagações, acabei encontrando como distração durante a leitura o desenvolvimento de um paralelo entre como vemos hoje a ciência e aqueles que a buscam, com a imagem que era retratada dos scholars no século XVII. É claro que as diferenças entre ambos os períodos são muito distintas, porém não totalmente incomuns à nossa modernidade caso eu então tente estender esse paralelo para um pouco mais além, até a cultura Otaku japonesa.
    Recentemente li um material que citava que esta cultura Otaku se baseou originalmente em indivíduos que dedicavam todo o seu tempo para a busca de conhecimento profundos acerca de assuntos específicos. Muitas destas pessoas, fazendo isso como uma extensão de sua própria educação científica superior. E por consequência disso então se isolando dos convívios sociais onde porém, em sua época, eles não eram execrados por fazê-lo. É claro que hoje em dia essa noção foi bruscamente alterada pela cultura pop até o ponto de não mais ter relações com a ciência mas, é curioso ver um rastro dos dilemas ingleses estampado também na cultura oriental. Onde lá porém, era aceito que uma pessoa abdicasse de sua vida social para a busca de conhecimentos sem ser taxada de "pedante" antes de porém ser compreendida como "socialmente inábil" mesmo. E é aí onde eu me vi parando após a leitura deste texto, me perguntando se as consequências de uma divisão entre pessoas que queriam se dedicar mais à vida social e de pessoas que queriam se dedicar mais ao isolamento não seriam meramente um padrão de escolhas humanas que jamais irão deixar de ser parte do que somos. Uma previsibilidade diante de nossa própria natureza de extremos que tentava se adequar à uma época onde: o decoro era o ápice do prestígio, mas o conhecimento uma insaciedade eterna.

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  3. Neste capítulo, o autor aborda o sentido dos termos “scholar”, “cristão” e “cavalheiro”. Apesar do autor entender que estes termos só se popularizaram nos séculos XVIII e XIX, ele faz uma espécie de arqueologia dos mesmos, no sentido de uma “avaliação das atitudes inglesas publicamente expressas nos séculos dezesseis e dezessete em relação aos atributos do cavalheiro e do scholar” (p. 145). Até o início da Era Moderna, havia uma forte oposição entre a vida ativa e a contemplativa, com a condenação da segunda. Neste contexto, “a oposição entre o scholar e o cavalheiro [...] se expressava por uma série de atribuições culturais que falavam das características temperamentais, morais e sociais dos scholars” e que permitiam “o julgamento simultâneo de virtude e valor cultural, de conduta apropriada e conhecimento apropriado” (p. 155). É consenso científico que traços religiosos dos puritanos foram importantes fontes de legitimidade para a filosofia natural empírica e experimental no século XVII. Porém, para além disso, o autor busca demonstrar que a legitimidade se dava também pela identificação de um sentido de nobreza, por um lado, e, por outro, pela diferenciação em relação à tradição. Ao longo do capítulo, o autor indica uma contraposição entre os cavalheiros e os scholars (termo mais ou menos genérico para se referir a uma variada gama de intelectuais em formação ou já reconhecidos) e a tentativa dos praticantes da nova prática científica de remodelar os papeis dos dois grupos, bem como os obstáculos enfrentados nesta tentativa, utilizando a “literatura cortesã” como fonte – pouco utilizada por historiadores da ciência. O autor indica a importância da instrução para o cavalheiro dos sécs. XVI e XVII. Neste contexto, o cavalheiro “invadia os escritórios” dos intelectuais, não para adquirir conhecimento de uso materialista, e sim para aprender oratória e “comportamento aceitável” (p. 151); não para ser “instruído como um scholar e sim treinado em civilidade” (p. 152). A partir daí, cada vez mais se julgava o comportamento dos scholars: eram tidos como solitários e pedantes e suas “opiniões” e “modos” os tornavam “ridículos” (p. 157), inadequados para a alta sociedade. Tal discurso foi usado no âmbito da tentativa de substituição da Escolástica por um novo tipo de conhecimento. Ou seja, “a legitimidade cívica da nova filosofia experimental devia assegurar-se ao mostrar precisamente de que maneira ela não se tratava do antigo ensino e seus praticantes não eram scholars tradicionais” (p. 163). Ao contrário destes, o filósofo experimental seria “sociável, flexível e refinado” (p. 163), e, neste sentido – para Boyle –, a filosofia experimental era adequada aos cavalheiros. Porém, esta tentativa fracassou: o modo como o intelectual era visto não mudou. Identicamente ao scholar tradicional, os novos filósofos eram tidos como sujeitos sem trato social, com modos ruins e grosseiros, que perdiam tempo com assuntos sem importância para a sociedade, sendo alvos de sátira.

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  4. Foi na Inglaterra do século XVII que assistimos à afirmação da ciência experimental, onde a atividade científica não mais se resumia a observar os fenômenos, partindo de dados empíricos para os princípios eternos (Deus), mas em tentar descobrir e explicar os fenômenos e as leis que constituíam a Natureza.
    Quem fazia esse novo tipo de ciência? O autor apresenta duas classes bem distintas daquela época: uma era o cavalheiro, que possuía nobreza, riqueza, era educado, sociável e era responsável pelo bem estar da sociedade em geral; outra era o scholar que tinha a erudição, porém era considerado anti-social, solitário, só se preocupava com seus estudos e experimentos, além de ser considerado pedante, inadequado para conviver na alta sociedade. Foi feita então uma tentativa de criar uma nova classe que tivesse características (as boas) tanto de cavalheiro quanto se scholar, ou seja, fosse educado, sociável, se preocupasse com o bem estar da sociedade e fosse erudito, intelectual e não pedante. Foi tentada uma reforma no ensino, para melhor intruir os cavalheiros. Foram criadas novas universidades, a Royal Society, etc. Surgiu então o novo cientista, o cavalheiro instruído ou o scholar virtuoso. Essa novo cientista foi chamado de filósofo experimental. No entanto, essa tentativa não deu certo, pois esses cientistas continuaram a ser vistos como os scholars, ou seja, grosseiros, sem trato social, não preocupados com a sociedade.

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  5. Neste capítulo, Shapin tenta ilustrar as diferenças entre o scholar e o cavalheiro.
    Definir o que era um cavalheiro no século XVII parece não se muito difícil, pois ser cavalheiro era vir de família nobre, e, como tal, receber a educação própria de cavalheiro e ter hábitos também pré-estabelecidos e esperados de um cavalheiro. Tendo, inclusive, o que se poderia chamar de manual, que orientava as boas práticas de um cavalheiro, sem necessariamente ter recebido educação formal (acadêmica).
    O scholar era aquele que praticava a aprendizagem tradicional, recebida de um “mestre” conhecido.
    O scholar poderia ser de origem humilde, um cavalheiro, um membro da igreja, um aristocrata...
    Há diversos trechos que justificam a necessidade de que todos se instruíssem. Fossem scholars.
    James Cleland propunha a utilidade da instrução: “Um cortesão instruído mostra-se capaz para discursos de Sua Majestade a qualquer tempo”. E que também seria útil na voluptuosidade dos cavalheiros: “Um cavalheiro de boa instrução e de boa fala “consegue cortejar as damas com discrição e diverti-las em conversa sábia e sincera”; um cortesão ignorante “faz com que as damas da câmara riam-se de suas falas”. (pag. 149)
    Em linhas gerais, a ideia que nos passa é a importância da instrução para as relações sociais, mas que se devia tomar cuidado para não ser utilizado de forma desnecessária, fazendo do scholar um pedante.

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  6. Neste capítulo, o autor descreve detalhadamente a problemática de diferenciar um scholar de um cavalheiro. Confesso que, anteriormente a este capítulo, ambas as definições eram muito mais nebulosas pra mim, mas chego à conclusão de que um scholar era o detentor de conhecimento pouco aplicável, as vezes considerado inútil e que, por isso, só ele se importaria em pesquisar, buscar, ter. Conforme o texto explica, muitos questionamentos foram levantados em minha mente a respeito do lugar dos scholars. Entendi, em alguns momentos, que o estudo, pesquisa, a "busca do conhecimento por conhecimento" é desmerecida, preterida em relação ao que seria a vida ativa, que envolveria o trabalho, o esporte, a política. Entendi que a principal característica dos scholars seria a busca incessante da disseminação do conhecimento, sua difusão e seu entendimento e que muitas vezes a universidade e os locais de produção desse conhecimento sofreram um certo preconceito e eram marginalizados.

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  7. Apresentação feita em aula. O arquivo com os slides da apresentação foi postado na área de "Apresentações" dentro da "pastateste"!

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  8. No capítulo 8, Shapin é um tanto quanto prolixo na tentativa de reforçar suas percepções referente às relações e distinções dos dogmas cristãos influenciáveis na conduta do cavalheiro e scholar, onde o cavalheiro é retratado como alguém que possui nobreza, riqueza, educação e influência quanto a política social; porém o scholar era dotado da erudição, pedante, anti-social, isolado socialmente, dedicado aos estudos e a ciência. Entretanto, o autor relata a iniciativa de unir o que seria o melhor dos atributos de ambos (cavalheiro e escolar) através da criação de novas universidade, principalmente preocupadas com a instrução do cavalheiro, possibilitando um cavalheiro muito bem instruído e um scholar virtuoso.

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  9. Para mim foi o capítulo mais complexo de ser lido e para tentar compreender sobre a fala é necessário observar o contexto histórico em que o texto se passa. Um período onde o humanismo, a imprensa e a criação do método científico são fatos que merecem destaque e nos ajudam no entendimento sobre o que Shapin deseja trazer para reflexão : a figura do scholar e do cavalheiro. O scholar era considerado alguém que tivesse um mestre para guiá-lo nos estudos ,já o termo cavalheiro estava associado à pessoas da nobreza. A vida de um scholar representava o isolamento da vida mundana, viviam separados da vida da corte e em recolhimento contemplativo, ao contrário da vida de um cavalheiro,nobre ou Lord que apontava para o altruísmo, dedicava-se à sociedade. Tinha uma vida social ativa diferente da vida contemplativa e deveria se comportar de maneira ponderada, exercendo o autocontrole , expressando magnanimidade e sustento da harmonia social.
    Neste cenário onde atores tão diferentes foram se complementando e se transformando para assumir novos papéis.

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