Vou começar pelo fim do capítulo: só Deus pode estar completamente sozinho, logo não tem cientista que consiga se isolar o suficiente para não receber qualquer influência do mundo exterior. Interessante pensar como foi construída a imagem de um cientista pedante, de cavalheiros estudados e da busca de estudiosos por um isolamento total como se isto dependesse seu "espírito" criativo. Para ser um cientista reconhecido, era necessário que este cientista fosse um cidadão reconhecido pela sociedade. Ao mesmo tempo ser um cavalheiro não era algo bem visto, talvez um pouco mundano. Em uma Inglaterra cheia de dogmas talvez fosse necessário apresentar um cientista puro, casto para que seus experimentos pudessem ser validados pela sociedade. Shapin vai ao longo do capítulo apresentando as controvérsias sobre o tema como por exemplo a do conhecimento local x conhecimento universal. Achei interessante o paralelo que ele faz quando diz que se um experimento tem que ser universal a sociedade era construída com estruturas que funcionariam contrariamente a este conhecimento universal. Ainda hoje temos visões individualistas da sociedade que apregoam este conhecimento universal e classificam como folclore, crenças e conhecimento localizado. Lembrei das expedições de Manguinhos que mostravam um pouco desta colonização. Cientistas nomearam plantas e deram a elas uma destinação, embora as plantas já fossem conhecidas, nominadas e que tivessem uma utilidade já conhecida.
“O lugar social do conhecimento não existe em lugar nenhum” (p. 121). “O sábio e o filósofo viviam mesmo em qualquer lugar e em nenhum lugar em especial. Esta é a base mais importante de sua sabedoria e de sua integridade” (p. 142). Podemos dizer que a razão de ser deste capítulo é a problematização desta ideia de status de pureza da ciência (e dos cientistas), como se ela estivesse fora da sociedade, e fosse, portanto, não-localizável e universal, se distanciando assim do conhecimento local, tido como “folclore”. Neste contexto, a figura do cientista é a do sujeito desprendido à matéria: ele busca o conhecimento independentemente de suas necessidades materiais, ou, eu diria, do seu ego. Shapin inicia o capítulo apontando a “retórica histórica da solitude”, demonstrando como o tema da solitude esteve presente, ao longo da história, em diversos aspectos da vida social, como religião (particularmente o cristianismo), arte, e também, ciência. Neste contexto, a solidão é vista como uma virtude, correlacionada à sabedoria. Shapin demonstra o quanto esta ideia estava presente entre diversos cientistas: Descartes, por exemplo, argumentava que “os que desejam corrigir o conhecimento não poderiam buscar por este em sociedade, nem no acúmulo do conhecimento disponível na sociedade, mas somente em si mesmos” (p. 124). Aristóteles, por sua vez, diz Shapin, “admitia que os que contemplavam a verdade punham-se à parte das demais pessoas pelo fato de que poderiam, na prática, alcançar seus objetivos sozinhos” (p. 126-127), enquanto Newton, o “scholar solitário” típico, negava a importância e legitimidade do papel do público da filosofia. Por outro lado, esta não era a única visão que se apresentava sobre o tema. Ao longo do Renascimento, passa-se a condenar uma vida inteiramente isolada e contemplativa, pois é da natureza humana a sociabilidade. Nesta perspectiva, a dicotomia entre cavalheiro (homem público) e scholar (privado) não significa que um mesmo sujeito não devesse apresentar aspectos destas duas figuras. Ao contrário, uma série de autores dos séculos XVI e XVII argumentava que “a vida de um cavalheiro pudesse transitar de maneira legítima no escritório do scholar, enquanto defendia uma nova abertura desse escritório” (p. 131). Foi, então, Bacon quem apontou que a produção do conhecimento é profundamente social e que a ideia de filosofia como atividade solitária é uma inverdade. Assim, notamos que a relação do cientista com a vida pública e a privada se apresentava, no século XVII, como uma questão inacabada, não resolvida. Penso que isso se dá não apenas pela divergência de opiniões dos cientistas, mas também porque na verdade o que ocorre é sempre uma espécie de revezamento entre estes dois “lugares”. É emblemática, neste sentido, a fala de Boyle de que “’caso se deva fingir a solitude... ainda assim não se escapará’ das solicitações e visitas dos curiosos” (p. 134). É no final do capítulo, através de Sir Thomas Browne, que Shapin “explana”: solitude, ao fim e ao cabo não existe. Hoje, sabemos (pelo menos em tese), que não existe cientista neutro (noção que parece ser a versão contemporânea do cientista solitário, distanciado da vida social) e que a ciência dita “universal” é geograficamente localizada (europeia). Neste ponto, vale mencionar o fato da decolonialidade ser o debate do momento, a partir do qual, penso, finalmente será possível pensar as ciências enquanto conhecimento existentes em lugares.
LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE Aluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa Reação ao capítulo 7 do livro “Nunca Pura”
Não é fácil apontar para o lugar do conhecimento em nossa cultura. Mais precisamente, é difícil localizar a produção de nossas formas mais valiosas de conhecimento, incluindo as de religião, literatura e ciência. O lugar do conhecimento não está em nenhum lugar em particular, mas em qualquer lugar. Um consenso difundido na cultura ocidental, desde os gregos, estipula que os agentes intelectuais mais autênticos são os mais solitários. A retórica da solitude está fortemente implicada nas visões individualistas da sociedade e nos retratos empiristas do conhecimento científico. Solitude é um estado que expressa simbolicamente o envolvimento direto com as fontes de conhecimento - divina e transcendente ou natural e empírica. Ao mesmo tempo, a solitude expressa publicamente o desengajamento da sociedade, identificado como um conjunto de convenções e preocupações que agem para corromper o conhecimento. Portanto, o estudo dos usos sociais da solitude acrescenta mais suporte à noção de que problemas de conhecimento e problemas de ordem social são resolvidos juntos. Shapin, no final do capítulo, diz que assim como o conhecimento, Deus também é definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar. A solitude não existe, e nem nada que exista sozinho, a não ser Deus. “O filósofo solitário, portanto, é somente um homem imitando Deus”.
Avaliando no capitulo a frase “Pois Deus também definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar”, a solitude absoluta, que é impossível para o ser humano, ou seja, todo humano sofre influência do meio, sou um fiel defensor do conhecimento produzido através das relações sociais e emocionais dos indivíduos, o isolamento limita o universo de pesquisa a mente do indivíduo, a universalidade do conhecimento que vivemos comprova o autor na afirmação que não existe a solitude,, em tempos de rede sociais e avanço tecnológico o isolamento não se justifica na prática científica.
Neste capítulo, o autor passa a descrever o conceito de cientista, em oposição ao que anteriormente era conhecido como sendo o padrão de um filósofo teórico. É feita uma exposição bastante interessante a respeito do quanto a religião foi fundamental na definição do quão importante é a reclusão na formação de um filósofo e o quanto esta visão romantizada de um filósofo padrão foi estendida ao que seriam os escolásticos e os cientistas. Em alguns trechos do texto me questionei se Boyle foi considerado um exemplo perfeito de cientista, recluso, celibatário, solitário. O capítulo é encerrado trazendo de volta à tona a questão do público e do privado no sentido do discurso e da retórica científica, na oposição entre a visão de Newton a respeito da não necessidade do público e da visão de Boyle da necessidade das testemunhas.
A Mente é Seu Próprio Lugar Ciência e Solitude na Inglaterra do Século XVII
O autor inicia o capítulo efetuando um questionamento de o porquê Deus se comunicar isoladamente com alguns, o que descreve por alguns exemplos. Ele cria uma oposição dos conceitos de cientista e filósofo teórico, quando exemplifica a importância da fé religiosa na formação do filósofo e de cientista. O autor descreve alguns contrapontos sobre o conhecimento local e o conhecimento universal. Segundo sua exemplificação, tendo sido um experimento classificado como universal, a sua sociedade se desenvolvia sobre estruturas contrariamente ao conceito universal (confuso...). Considerando o mundo moderno em que vivemos, globalizado, onde as informações são repassadas em altíssimas velocidades, não há como estar em isolamento científico, ou talvez não se justifique tal isolamento.
Neste capítulo é possível perceber que “o lugar social do conhecimento não existe em lugar nenhum.” É necessária a solitude para que haja a transferência do conhecimento divino para agentes humanos. Partindo dessa premissa, imaginamos que os detentores do conhecimento, ao longo da história da humanidade, precisaram estar só para “receber a inspiração divina”. O texto abaixo representa bem este pensamento: “Dentro do espaço definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar, encontramos os filósofos, o conhecimento transcendental que eles produzem e a fonte extrema de conhecimento transcendente. Pois Deus é também definido como estando em todo lugar e em lugar nenhum. E somente Deus, diz-se, desfruta da unidade e de integridade da solitude absoluta. No século dezessete, Sir. Thomas Browne identificava os limites do estar-só humano: “A solitude ou algo assim não existe, e nem nada que possa dizer que exista sozinho e somente consigo próprio, a não ser Deus, Que é Seu próprio círculo e pode substituir por Si próprio; todos os demais... não podem subsistir sem a concordância de Deus, e nem a sociedade sem essa mão que sustenta Sua natureza. Em suma, nada pode existir verdadeiramente sozinho e por si próprio que não seja verdadeiramente um; e tal um é somente Deus”. O filósofo solitário, portanto, é somente um homem imitando Deus.” (pag. 143)
A criação exige ou não solitute do cientista ou criador¿ Um dos temas discutidos nesse capítulo aponta para a questão da retórica da solitude, vinculado a ideia de criação divina, transcendente ou mesmo empírica e natural, que se configurou como um dos paradigmas para o cientista em determinado período histórico em que a ciência ainda se baseava no isolamento e a criação individual ou referência exclusiva ao criador. Hoje, dando um passo além, temos a noção de que todo conhecimento se configura através de uma rede de relacionamentos, implica um coletivo sempre! Embora haja sempre um autor, que nomeia a obra, o fenômeno de criação cientifica está sempre implicado à uma demanda social e às queixas de sua comunidade que reclama soluções e avanços para o progresso da humanidade. Deste modo, podemos afirmar que a ciência é um fenômeno social envolvendo um coletivo, embora ainda engessada a padrões e normas rígidas de seu reconhecimento, descartando aquilo que não lhe é espelho!
No capítulo 7, Shapin traz o paradigma humano refletido no isolamento criativo versus obrigações sociais (público e do privado) referente a exposição da imagem do filósofo ou cientista, porém, o autor faz analogias que representam os hábitos de religiosos, filósofos ou estudiosos face a uma vida privada do mundo exterior. Para se alcançar o verdadeiro conhecimento seria realmente necessário um isolamento?
Em “A Mente é Seu Próprio Lugar”, Shapin aborda uma questão para a qual não havia me detido até a leitura: a situação da vida em relação a solitude e do engajamento ativo em sociedade. Curioso reconhecer uma sociedade de scholars, acerca de onde a mente deveria situar-se. Filosofia e religião são ligadas pela ideia de lugar de retiro e solitude. Um ambiente de preservação das aparências, proteção do aspecto interior da vida dos praticantes da ciência, onde entendimentos religiosos da solitude estavam disponíveis para se realizar essa tarefa. O autor destaca que nossa cultura a retórica da solitude é apoiada por visões individualistas da sociedade, onde tudo o que se pode fazer pelo conhecimento adequado é não colocar obstáculos ao isolamento do indivíduo capaz de produzi-lo. “Sociedade” fica sendo assim reconhecida como aquilo que acontece do lado de fora, fora de lugar, fora da mente. O conhecimento produzido designado então “universal”. Tentativas de mostrar localização do conhecimento neste contexto são consideradas como uma forma de diminuí-lo ou até desprezá-lo. “Dizia-se que o sábio e o filósofo viviam mesmo em qualquer lugar e em nenhum lugar especial. Esta é a base de sua sabedoria e sua integridade”. Porém essa solitude simplesmente não existe. O filósofo que se quer solitário está somente a se expressar para a sociedade pelo que ele deseja que a mesma apreenda dele, um ritual para ser reconhecido socialmente como filósofo. Mas no fim, não passa de um homem querendo ser como aquilo que se idealiza, também socialmente, de Deus.
“ Giz, quadro negro e código. Essas eram as ferramentas que Owura Kwadwo Hottish tinha à disposição para ensinar computação a alunos em Gana. Na escola em que leciona, não há computadores. Pacote Office? Nem pensar. A solução era usar giz colorido e muito capricho para desenhar uma réplica do editor de textos Microsoft Word no quadro negro para demonstrar seu uso. Desenhar em detalhes a interface de um software tão repleto de funções e botões quanto o Word leva tempo. Por isso, Hottish começa a desenhar meia hora antes dos alunos chegarem. Depois da aula, o desenho é apagado para deixar a lousa disponível para o próximo professor.” O lugar do cientista é onde se faz a ciência e não isolado como acontecia historicamente. E se fazer ciência nos refere ao sistema de adquirir conhecimento baseado em um método científico bem como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tais pesquisas, me pergunto se existe um método científico que possa ser aplicado à ciência, sem que se leve em conta o conhecimento historicamente construído? A reportagem citada no início da reação representa minha ideia sobre um cientista e do que significa fazer ciência através da localidade.
“Amente é seu próprio Lugar” – Ciência e solitude na Inglaterra do século XVII. Neste capítulo, o autor trata da solitude dos gênios criativos, também chamado de “solidão literária” ou “egotismo obscuro”. Diz-se que a solidão é o estado ideal para o entendimento profundo do “eu” e da sociedade. Para diversos autores e cientistas, a solitude seria uma condição apropriada para o autoconhecimento, para obter conhecimento filosófico e analisar os melhores caminhos para conquistá-los. Thoreau, Newton, Descartes e muitos outros filósofos e cientistas refugiavam-se na solidão para trabalhar. Aristóteles se referia aos filósofos como pessoas que a diferença dos demais, não precisavam de bens mundanos para viver. Por um lado temos o homem naturalmente sociável, e ao mesmo o filósofo sozinho e em estado contemplativo. Para os cristãos, os fiéis podiam escolher o tipo de vida a seguir, podendo se recluir da sociedade aqueles que se dedicavam à preparação para os céus. Ao longo do Renascimento, o scholar vivia relativamente isolado, dizia-se que a melancolia era sua companhia inseparável, em tanto o estado de solidão, era considerado inadequad para os cavalheiros, que deveriam participar da vida social. No século XVII, se bem a presença de público era essencial para a validação das experiencias, a produção de conhecimento em si ocorria na solidão dos espaços privados. O afastamento, era visto como uma forma de distância das corrupções e contaminações da vida social. Mesmo em posição de eremita, o filósofo, cientista, comunicava-se através de uma linguagem publica, tornando o conhecimento universal. Dizia-se que o sábio e o filósofo, como qualquer pessoa íntegra, não precisam de companhia, a companhia são seus próprios pensamentos, ao que em contraponto, no Século XVII afirmou-se que somente Deus existe sozinho e somente consigo próprio, portanto o filosofo solitário é somente um homem imitando Deus.
Vou começar pelo fim do capítulo: só Deus pode estar completamente sozinho, logo não tem cientista que consiga se isolar o suficiente para não receber qualquer influência do mundo exterior. Interessante pensar como foi construída a imagem de um cientista pedante, de cavalheiros estudados e da busca de estudiosos por um isolamento total como se isto dependesse seu "espírito" criativo. Para ser um cientista reconhecido, era necessário que este cientista fosse um cidadão reconhecido pela sociedade. Ao mesmo tempo ser um cavalheiro não era algo bem visto, talvez um pouco mundano. Em uma Inglaterra cheia de dogmas talvez fosse necessário apresentar um cientista puro, casto para que seus experimentos pudessem ser validados pela sociedade. Shapin vai ao longo do capítulo apresentando as controvérsias sobre o tema como por exemplo a do conhecimento local x conhecimento universal. Achei interessante o paralelo que ele faz quando diz que se um experimento tem que ser universal a sociedade era construída com estruturas que funcionariam contrariamente a este conhecimento universal. Ainda hoje temos visões individualistas da sociedade que apregoam este conhecimento universal e classificam como folclore, crenças e conhecimento localizado. Lembrei das expedições de Manguinhos que mostravam um pouco desta colonização. Cientistas nomearam plantas e deram a elas uma destinação, embora as plantas já fossem conhecidas, nominadas e que tivessem uma utilidade já conhecida.
ResponderExcluir“O lugar social do conhecimento não existe em lugar nenhum” (p. 121). “O sábio e o filósofo viviam mesmo em qualquer lugar e em nenhum lugar em especial. Esta é a base mais importante de sua sabedoria e de sua integridade” (p. 142). Podemos dizer que a razão de ser deste capítulo é a problematização desta ideia de status de pureza da ciência (e dos cientistas), como se ela estivesse fora da sociedade, e fosse, portanto, não-localizável e universal, se distanciando assim do conhecimento local, tido como “folclore”. Neste contexto, a figura do cientista é a do sujeito desprendido à matéria: ele busca o conhecimento independentemente de suas necessidades materiais, ou, eu diria, do seu ego. Shapin inicia o capítulo apontando a “retórica histórica da solitude”, demonstrando como o tema da solitude esteve presente, ao longo da história, em diversos aspectos da vida social, como religião (particularmente o cristianismo), arte, e também, ciência. Neste contexto, a solidão é vista como uma virtude, correlacionada à sabedoria. Shapin demonstra o quanto esta ideia estava presente entre diversos cientistas: Descartes, por exemplo, argumentava que “os que desejam corrigir o conhecimento não poderiam buscar por este em sociedade, nem no acúmulo do conhecimento disponível na sociedade, mas somente em si mesmos” (p. 124). Aristóteles, por sua vez, diz Shapin, “admitia que os que contemplavam a verdade punham-se à parte das demais pessoas pelo fato de que poderiam, na prática, alcançar seus objetivos sozinhos” (p. 126-127), enquanto Newton, o “scholar solitário” típico, negava a importância e legitimidade do papel do público da filosofia. Por outro lado, esta não era a única visão que se apresentava sobre o tema. Ao longo do Renascimento, passa-se a condenar uma vida inteiramente isolada e contemplativa, pois é da natureza humana a sociabilidade. Nesta perspectiva, a dicotomia entre cavalheiro (homem público) e scholar (privado) não significa que um mesmo sujeito não devesse apresentar aspectos destas duas figuras. Ao contrário, uma série de autores dos séculos XVI e XVII argumentava que “a vida de um cavalheiro pudesse transitar de maneira legítima no escritório do scholar, enquanto defendia uma nova abertura desse escritório” (p. 131). Foi, então, Bacon quem apontou que a produção do conhecimento é profundamente social e que a ideia de filosofia como atividade solitária é uma inverdade. Assim, notamos que a relação do cientista com a vida pública e a privada se apresentava, no século XVII, como uma questão inacabada, não resolvida. Penso que isso se dá não apenas pela divergência de opiniões dos cientistas, mas também porque na verdade o que ocorre é sempre uma espécie de revezamento entre estes dois “lugares”. É emblemática, neste sentido, a fala de Boyle de que “’caso se deva fingir a solitude... ainda assim não se escapará’ das solicitações e visitas dos curiosos” (p. 134). É no final do capítulo, através de Sir Thomas Browne, que Shapin “explana”: solitude, ao fim e ao cabo não existe. Hoje, sabemos (pelo menos em tese), que não existe cientista neutro (noção que parece ser a versão contemporânea do cientista solitário, distanciado da vida social) e que a ciência dita “universal” é geograficamente localizada (europeia). Neste ponto, vale mencionar o fato da decolonialidade ser o debate do momento, a partir do qual, penso, finalmente será possível pensar as ciências enquanto conhecimento existentes em lugares.
ResponderExcluirLABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
ResponderExcluirAluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa
Reação ao capítulo 7 do livro “Nunca Pura”
Não é fácil apontar para o lugar do conhecimento em nossa cultura. Mais precisamente, é difícil localizar a produção de nossas formas mais valiosas de conhecimento, incluindo as de religião, literatura e ciência. O lugar do conhecimento não está em nenhum lugar em particular, mas em qualquer lugar. Um consenso difundido na cultura ocidental, desde os gregos, estipula que os agentes intelectuais mais autênticos são os mais solitários. A retórica da solitude está fortemente implicada nas visões individualistas da sociedade e nos retratos empiristas do conhecimento científico. Solitude é um estado que expressa simbolicamente o envolvimento direto com as fontes de conhecimento - divina e transcendente ou natural e empírica. Ao mesmo tempo, a solitude expressa publicamente o desengajamento da sociedade, identificado como um conjunto de convenções e preocupações que agem para corromper o conhecimento. Portanto, o estudo dos usos sociais da solitude acrescenta mais suporte à noção de que problemas de conhecimento e problemas de ordem social são resolvidos juntos.
Shapin, no final do capítulo, diz que assim como o conhecimento, Deus também é definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar. A solitude não existe, e nem nada que exista sozinho, a não ser Deus. “O filósofo solitário, portanto, é somente um homem imitando Deus”.
Avaliando no capitulo a frase “Pois Deus também definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar”, a solitude absoluta, que é impossível para o ser humano, ou seja, todo humano sofre influência do meio, sou um fiel defensor do conhecimento produzido através das relações sociais e emocionais dos indivíduos, o isolamento limita o universo de pesquisa a mente do indivíduo, a universalidade do conhecimento que vivemos comprova o autor na afirmação que não existe a solitude,, em tempos de rede sociais e avanço tecnológico o isolamento não se justifica na prática científica.
ResponderExcluirNeste capítulo, o autor passa a descrever o conceito de cientista, em oposição ao que anteriormente era conhecido como sendo o padrão de um filósofo teórico. É feita uma exposição bastante interessante a respeito do quanto a religião foi fundamental na definição do quão importante é a reclusão na formação de um filósofo e o quanto esta visão romantizada de um filósofo padrão foi estendida ao que seriam os escolásticos e os cientistas. Em alguns trechos do texto me questionei se Boyle foi considerado um exemplo perfeito de cientista, recluso, celibatário, solitário. O capítulo é encerrado trazendo de volta à tona a questão do público e do privado no sentido do discurso e da retórica científica, na oposição entre a visão de Newton a respeito da não necessidade do público e da visão de Boyle da necessidade das testemunhas.
ResponderExcluirA Mente é Seu Próprio Lugar
ResponderExcluirCiência e Solitude na Inglaterra do Século XVII
O autor inicia o capítulo efetuando um questionamento de o porquê Deus se comunicar isoladamente com alguns, o que descreve por alguns exemplos.
Ele cria uma oposição dos conceitos de cientista e filósofo teórico, quando exemplifica a importância da fé religiosa na formação do filósofo e de cientista.
O autor descreve alguns contrapontos sobre o conhecimento local e o conhecimento universal. Segundo sua exemplificação, tendo sido um experimento classificado como universal, a sua sociedade se desenvolvia sobre estruturas contrariamente ao conceito universal (confuso...).
Considerando o mundo moderno em que vivemos, globalizado, onde as informações são repassadas em altíssimas velocidades, não há como estar em isolamento científico, ou talvez não se justifique tal isolamento.
Neste capítulo é possível perceber que “o lugar social do conhecimento não existe em lugar nenhum.”
ResponderExcluirÉ necessária a solitude para que haja a transferência do conhecimento divino para agentes humanos. Partindo dessa premissa, imaginamos que os detentores do conhecimento, ao longo da história da humanidade, precisaram estar só para “receber a inspiração divina”.
O texto abaixo representa bem este pensamento:
“Dentro do espaço definido como estando em todo lugar e em nenhum lugar, encontramos os filósofos, o conhecimento transcendental que eles produzem e a fonte extrema de conhecimento transcendente. Pois Deus é também definido como estando em todo lugar e em lugar nenhum. E somente Deus, diz-se, desfruta da unidade e de integridade da solitude absoluta. No século dezessete, Sir. Thomas Browne identificava os limites do estar-só humano: “A solitude ou algo assim não existe, e nem nada que possa dizer que exista sozinho e somente consigo próprio, a não ser Deus, Que é Seu próprio círculo e pode substituir por Si próprio; todos os demais... não podem subsistir sem a concordância de Deus, e nem a sociedade sem essa mão que sustenta Sua natureza. Em suma, nada pode existir verdadeiramente sozinho e por si próprio que não seja verdadeiramente um; e tal um é somente Deus”. O filósofo solitário, portanto, é somente um homem imitando Deus.” (pag. 143)
Link para o áudio da apresentação (dinâmica) feita em sala de aula:
ResponderExcluirhttps://drive.google.com/open?id=1SB29sTHVU0gXaVsM_qX4xed9YkYza40O
A criação exige ou não solitute do cientista ou criador¿ Um dos temas discutidos nesse capítulo aponta para a questão da retórica da solitude, vinculado a ideia de criação divina, transcendente ou mesmo empírica e natural, que se configurou como um dos paradigmas para o cientista em determinado período histórico em que a ciência ainda se baseava no isolamento e a criação individual ou referência exclusiva ao criador. Hoje, dando um passo além, temos a noção de que todo conhecimento se configura através de uma rede de relacionamentos, implica um coletivo sempre! Embora haja sempre um autor, que nomeia a obra, o fenômeno de criação cientifica está sempre implicado à uma demanda social e às queixas de sua comunidade que reclama soluções e avanços para o progresso da humanidade. Deste modo, podemos afirmar que a ciência é um fenômeno social envolvendo um coletivo, embora ainda engessada a padrões e normas rígidas de seu reconhecimento, descartando aquilo que não lhe é espelho!
ResponderExcluirNo capítulo 7, Shapin traz o paradigma humano refletido no isolamento criativo versus obrigações sociais (público e do privado) referente a exposição da imagem do filósofo ou cientista, porém, o autor faz analogias que representam os hábitos de religiosos, filósofos ou estudiosos face a uma vida privada do mundo exterior.
ResponderExcluirPara se alcançar o verdadeiro conhecimento seria realmente necessário um isolamento?
Bruno Mussa
ResponderExcluirEm “A Mente é Seu Próprio Lugar”, Shapin aborda uma questão para a qual não havia me detido até a leitura: a situação da vida em relação a solitude e do engajamento ativo em sociedade. Curioso reconhecer uma sociedade de scholars, acerca de onde a mente deveria situar-se. Filosofia e religião são ligadas pela ideia de lugar de retiro e solitude. Um ambiente de preservação das aparências, proteção do aspecto interior da vida dos praticantes da ciência, onde entendimentos religiosos da solitude estavam disponíveis para se realizar essa tarefa. O autor destaca que nossa cultura a retórica da solitude é apoiada por visões individualistas da sociedade, onde tudo o que se pode fazer pelo conhecimento adequado é não colocar obstáculos ao isolamento do indivíduo capaz de produzi-lo. “Sociedade” fica sendo assim reconhecida como aquilo que acontece do lado de fora, fora de lugar, fora da mente. O conhecimento produzido designado então “universal”. Tentativas de mostrar localização do conhecimento neste contexto são consideradas como uma forma de diminuí-lo ou até desprezá-lo. “Dizia-se que o sábio e o filósofo viviam mesmo em qualquer lugar e em nenhum lugar especial. Esta é a base de sua sabedoria e sua integridade”. Porém essa solitude simplesmente não existe. O filósofo que se quer solitário está somente a se expressar para a sociedade pelo que ele deseja que a mesma apreenda dele, um ritual para ser reconhecido socialmente como filósofo. Mas no fim, não passa de um homem querendo ser como aquilo que se idealiza, também socialmente, de Deus.
“ Giz, quadro negro e código. Essas eram as ferramentas que Owura Kwadwo Hottish tinha à disposição para ensinar computação a alunos em Gana. Na escola em que leciona, não há computadores. Pacote Office? Nem pensar. A solução era usar giz colorido e muito capricho para desenhar uma réplica do editor de textos Microsoft Word no quadro negro para demonstrar seu uso.
ResponderExcluirDesenhar em detalhes a interface de um software tão repleto de funções e botões quanto o Word leva tempo. Por isso, Hottish começa a desenhar meia hora antes dos alunos chegarem. Depois da aula, o desenho é apagado para deixar a lousa disponível para o próximo professor.”
O lugar do cientista é onde se faz a ciência e não isolado como acontecia historicamente. E se fazer ciência nos refere ao sistema de adquirir conhecimento baseado em um método científico bem como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tais pesquisas, me pergunto se existe um método científico que possa ser aplicado à ciência, sem que se leve em conta o conhecimento historicamente construído?
A reportagem citada no início da reação representa minha ideia sobre um cientista e do que significa fazer ciência através da localidade.
Referência: https://exame.abril.com.br/tecnologia/a-incrivel-historia-do-professor-que-ensina-computacao-na-lousa/
POSTANDO POR EDEL VALY
ResponderExcluir“Amente é seu próprio Lugar” – Ciência e solitude na Inglaterra do século XVII.
Neste capítulo, o autor trata da solitude dos gênios criativos, também chamado de “solidão literária” ou “egotismo obscuro”.
Diz-se que a solidão é o estado ideal para o entendimento profundo do “eu” e da sociedade. Para diversos autores e cientistas, a solitude seria uma condição apropriada para o autoconhecimento, para obter conhecimento filosófico e analisar os melhores caminhos para conquistá-los.
Thoreau, Newton, Descartes e muitos outros filósofos e cientistas refugiavam-se na solidão para trabalhar.
Aristóteles se referia aos filósofos como pessoas que a diferença dos demais, não precisavam de bens mundanos para viver. Por um lado temos o homem naturalmente sociável, e ao mesmo o filósofo sozinho e em estado contemplativo. Para os cristãos, os fiéis podiam escolher o tipo de vida a seguir, podendo se recluir da sociedade aqueles que se dedicavam à preparação para os céus.
Ao longo do Renascimento, o scholar vivia relativamente isolado, dizia-se que a melancolia era sua companhia inseparável, em tanto o estado de solidão, era considerado inadequad para os cavalheiros, que deveriam participar da vida social.
No século XVII, se bem a presença de público era essencial para a validação das experiencias, a produção de conhecimento em si ocorria na solidão dos espaços privados. O afastamento, era visto como uma forma de distância das corrupções e contaminações da vida social.
Mesmo em posição de eremita, o filósofo, cientista, comunicava-se através de uma linguagem publica, tornando o conhecimento universal.
Dizia-se que o sábio e o filósofo, como qualquer pessoa íntegra, não precisam de companhia, a companhia são seus próprios pensamentos, ao que em contraponto, no Século XVII afirmou-se que somente Deus existe sozinho e somente consigo próprio, portanto o filosofo solitário é somente um homem imitando Deus.