A leitura deste capítulo aborda as várias divergências e limiares entre o senso comum, a expertise e até onde a autoridade de alguém podia se construir dentro das questões medicinais. Focando especialmente no médico Gerge Cheyne. Ler este capítulo foi um verdadeiro teste de autocontrole pessoal para que eu me prevenisse de mentalmente criticar cada decisão médica que Cheyne tomava, ou para não desdenhar mentalmente de seu foco quase exclusivo nas dietas como remédio para todos os tipos de aflições possíveis. Afinal, seja qual fosse minha opinião no curso do texto, uma coisa é fato, Cheyne conseguiu mesmo assim construir sua credibilidade tanto por um grau de expertise quanto por um grau de intimidade que ele criava com seus pacientes. Ao ponto de talvez até mesmo a manipulação emocional se tornar um artifício para que sua autoridade médica fosse confiada acima da "autoridade" do próprio paciente acerca de seus males. Coisa que Shapin denota no começo de seu texto como sendo o reconhecido e aceito "senso comum" dentro do meio da medicina, mas que ele acaba ao mesmo tempo abandonando pelas páginas seguintes para dar lugar apenas à análise dos métodos de Chayne em fazer sua expertise valer. Honestamente eu gostaria de que Shapin tivesse tido em mãos algum exemplo melhor de embate entre Cheyne e seus pacientes, onde ambos o senso comum e a expertise demonstrassem claramente brigar pela "última palavra". Mas como este não foi o caso, talvez então eu deva apenas me contentar com o fato de que outros exemplos de cenários idênticos a este jamais irão ser eximidos pelo tempo, se repetindo até hoje na forma de disputas entre aqueles que detém o conhecimento generalizado, e aqueles que detém o conhecimento individual -independente do contexto no qual as pessoas se encontrem.
Expertise ou senso comum. Fico pensando em nosso padrão acadêmico que valoriza quase que predominantemente o conhecimento científico disciplinar em uma escola de medicina e como seria a medicina no século XVII, um equilíbrio entre a teoria e a prática, talvez. Shapin fala em senso comum, mas o que seria isto? A legitimidade de alguém julgar e decidir algo? Ou um conhecimento associado à uma expertise construída? Lembro de uma frase muito dita em família: ter saúde é uma questão de bom senso. Confesso que não lembro de lido nenhum artigo que se baseasse em referências que trabalhassem com senso comum em vez de do pensamento científico. Não ficou muito claro para mim se o Shapin coloca que os estudos científicos se iniciaram a partir de um conhecimento comum e depois foram se articulando com a investigação científica e acabaram se distanciando do conhecimento comum. Fiquei pensando em todos os livros de dietas existentes, nas redes sociais onde as pessoas compartilham receitas lowcarb, fazem apologia a jejum intermitente e toda sorte de informações na rede. Lembro das propagandas que tratam alguns alimentos industrializados como algo que sua saúde precisa – um Danoninho vale por um bifinho. Segundo informações do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UNB, em uma pesquisa realizada entre 2006 e 2007, 20% da programação das TVs eram ocupadas por publicidade e desse total 10% eram sobre alimentos. 72% das propagandas podiam ser divididas em 5 categorias de produtos: fast food, guloseimas e sorvetes; refrigerantes e sucos artificiais; salgadinhos de pacote e biscoito e bolos). Nos canais abertos e fechados, 44% do total das propagandas de alimentos é direcionado às crianças. Com este tipo de influência fica difícil pensar em conhecimento comum.
O autor inicia o texto apontando que da Antiguidade até o início do século XX médicos e leigos compartilhavam um mesmo vocabulário, o que possibilitava uma importante interação entre médico e paciente. A partir daí, ele irá pensar sobre a relação entre expertise e prudência e quais as consequências disso para as relações de autoridade e confiança entre médico e paciente. Segundo Shapin, no início do período moderno os médicos compreendiam que “afirmar sua expertise não necessariamente significava que se havia deixado para trás o senso comum” (p. 293); do outro lado, os pacientes, “leigos”, também compreendiam que ninguém – nem mesmo o médico – podia conhecer melhor o seu próprio corpo do que eles mesmos. Para o autor, essa perspectiva – a de que o conhecimento do senso comum “dá conta do recado”, sem ser necessário o conhecimento médico – fica ainda mais explícita no âmbito do conhecimento sobre dieta, no qual senso comum e expertise se aproximam ainda mais. Shapin analisa então o caso empírico do médico de dietas George Cheyne, através de cartas trocadas entre ele e dois de seus pacientes. A partir daí, o autor busca compreender como a expertise médica e os casos específicos dos pacientes se inter-relacionam no cotidiano e como credibilidade, prudência e autoridade se apresentam na forma de conselhos médicos práticos. O caso de Cheyne se mostra particularmente interessante por sua abordagem “radical” e polêmica – o regime de leite-e-sementes, em determinados casos. Por ir contra o “senso comum” vigente, essa abordagem radical exigia do médico estratégias para assegurar autoridade e adquirir o consentimento do paciente. Tais estratégias passavam por argumentação de equilíbrio e bom senso, ou seja, o uso do Meio Termo mesmo no âmbito de uma dieta aparentemente radical; a utilização de linguagem do senso comum; a apresentação dos muitos casos de sucesso; o encorajamento dos pacientes; a informação de que ele próprio havia utilizado a prática, etc. Percebemos, assim, que a expertise de filosofia natural, nesse contexto, era a menos importante. Ainda que ela fosse acionada (como argumentação com o paciente) em alguns poucos casos específicos, de maneira geral essa expertise só interessava aos pares (médicos). Para os leigos, interessava outro tipo de expertise: o que Shapin chama de expertise da prudência (conhecimento prático), em contraposição à expertise ontológica (conhecimento teórico). Nas palavras de Shapin, aos pacientes interessava que a expertise fosse “posta em relação com seus casos – de maneira humanitária, conscienciosa e eficaz” (p. 315). E para tal, a maneira de se comunicar não podia ser a mesma daquela utilizada junto aos pares. No caso de Cheyne, as cartas foram esse mecanismo. Elas “não apenas diziam que ele se importava com seus pacientes individualmente; elas também eram uma maneira importante pela qual esse cuidado ganhava forma” (p. 316). Trazendo para os dias de hoje, fiquei pensando: em que momento os médicos perderam a habilidade de se aproximarem de seus pacientes, serem empáticos, e falarem em uma linguagem compreensível? Reclamam que cada vez mais pessoas se automedicam e dispensam a ida ao médico, mas não fazem um processo de autorreflexão da própria prática, no que diz respeito ao relacionamento com os pacientes. Fico pensando também que muitos cientistas que se colocam à disposição de se comunicarem com o público de uma forma até mesmo “pop”, eu diria, participando, por exemplo, de programas televisivos, são menosprezados por seus pares. Porém, o que mais falta entre cientistas é justamente essa capacidade de “descer do salto” e então fazer uma comunicação efetiva, não no sentido de convencimento das benesses da ciência, mas de diálogo. Deveríamos voltar a falar a mesma linguagem do senso comum, como no início do século XX. Falar menos “cientifiquês”, como disse certa vez o geógrafo Milton Santos, em um programa “pop”...
Neste capítulo, o autor nos fala sobre a expertise médica, no início do século XVIII. Em especial, sobre George Cheyne. Como nos capítulos anteriores, ratifica a importância da dieta (regime ou higiene) do indivíduo, bem como da temperança: tudo deveria ser feito com moderação, pois a temperança era considerada uma das virtudes clássicas e através da qual se manteria corpo e mente equilibrados. Muito citada pelos autores do início do período moderno, a Regra de Celso “defendia que indivíduos que tivessem boa saúde no dia a dia não precisariam de médico e nem de se submeter às restrições e regras médicas”. (pag. 293) George Cheyne destacou-se não só como médico, mas também como escritor. E o centro dos seus aconselhamentos era a dieta, mas também fornecia diagnósticos, prognósticos e receitas terapêuticas. Utilizava conceitos newtonianos para descrever o funcionamento do corpo humano e explicar como surgiam determinadas doenças, em função de não observância da temperança e/ou de uma dieta inadequada. Segundo Cheyne, “o corpo humano é uma máquina hidráulica, um compacto de canos. A “elasticidade” dos sólidos do corpo era uma herança paterna bem durável – a qual não se alterava facilmente com o tempo (embora isso fosse impossível). Os líquidos corpóreos advinham da mãe e podiam se modificar prontamente, de acordo com o modo de vida e, em especial, com a comida e a bebida. Essa é a explicação filosófica geral para o motivo pelo qual a tarefa primordial do médico de dietas era cuidar dos líquidos corpóreos: se esses pudessem ser corrigidos por meio de conselhos sobre dieta de especialistas, “eles com o tempo... retificarão e confirmarão os sólidos os Sólidos em suas próprias Situação e Tonicidade”. (pag. 298)
LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE Aluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa Reação ao capítulo 13 do livro “Nunca Pura”
Como muitos de sua classe, George Cheyne estava muito acima do peso. Como era comum na época, Cheyne visitava frequentemente seus pacientes nas tabernas populares da cidade. Sendo um homem alegre e espirituoso, ele era muito apreciado por seus clientes e, com frequência, se juntava a eles para comer e beber - dentro e fora do horário de trabalho. Cheyne tornou-se, em suas próprias palavras, amigo de "companheiros de copo, cavalheiros mais jovens, os de vida livre", porque, como eles, gostava de "comer luxuriosamente e ingerir muita bebida". No entanto, esse estilo de vida cobrou seu preço. Em 1705, com apenas 34 anos, Cheyne tinha sérios problemas de saúde. Sua dieta rica em comida e bebida fez com que ele aumentasse de peso até 180 quilos. Cheyne estava deprimido, sem fôlego e letárgico. Ele também quase morreu do que chamou de "paroxismos vertiginosos", também conhecidos como ataque cardíaco e derrame. Cheyne resolveu então mudar de vida: parou de beber e passou a se alimentar somente de leite e vegetais. Sua dieta atraiu uma variedade de clientes elegantes e influentes. Cheyne aconselhou os aristocratas como perder peso. Ele se tornou o primeiro médico de dieta. Seus livros e sua prática fizeram dele um homem rico. Os métodos de Cheyne incentivavam a disseminação do vegetarianismo entre as classes literárias. Os livros de Cheyne permaneceram populares por mais de 50 anos.
Neste capítulo o autor esclarece o quão difícil foi a tarefa de cunhar a nutrição e a dietética com um viés científico, categorizado, superior, digno de ser seguido e obedecido. Expõe a realidade dos físicos frente ao que debateu sobre a dificuldade encontrada na época em discordar dos cavalheiros. Cita o exemplo do médico George, que atendia diversos pacientes de classe média a alta, em um sistema que descrevo como de troca de conteúdo, no sentido de que ele considerava seus pacientes como detentores de um conhecimento próprio inerente ao funcionamento de seu próprio corpo, também dignos do mesmo patamar de validade que os seus, advindos de estudo, de experiência, de vivência. Creio que as discussões desse capítulo sejam muito relacionadas a questão da confiabilidade da produção do conhecimento, sendo o médico em questão digno ou não de confiança, digno ou não de um lugar de escuta.
POSTANDO PELA EDEL VALY (como sugerido pelo Edu)! Continuando a relacionar à dieta com a ciência , a moral, o quotidiano, seja dos filósofos, cavalheiros ou de quem contratava serviços médicos, o autor continua nos instigando sobre questões relacionadas à saúde e comportamentos do Século 18, nos lembrando que o papel do médico se equilibrava entre a expertise e o bom senso. À época, as pessoas leigas que tinham condições de pagar serviços médicos, costumavam lidar com o vocabulário médico, ao ponto que alguns médicos afirmavam que muitos leigos eram especialistas em si próprios. Shapin, neste capítulo, espera contribuir para o entendimento das relações entre senso comum e expertise, trazendo a título de exemplo, o caso de George Cheyne (1671-17430 médico, filósofo e matemático escocês, especializado em dietas. O autor traz questionamentos sobre a apresentação da expertise, tanto na obra de Cheyne como na prática, além do papel da expertise médica diante do paciente. À expertise do médico somava-se o senso comum ou o que as pessoas acreditavam ser senso comum, em base às suas crenças e práticas. No final do Século XVII, uma vez que os médicos conheceram as microestruturas e os micro mecanismos da nutrição e o corpo, entendia-se que podiam melhor aconselhar. Neste contexto, Cheyne inicia a sua carreira em Londres com muito sucesso, trazendo uma nova teoria sobre febres, inspirado por seu mentor Pitcairne e, seguindo os em voga princípios matemáticos e newtonianos, aos quais, anos depois, referiu-se como audácia e entusiasmo excessivo. Nesta segunda fase mais madura, dedicou-se a doenças crônicas, aconselhando moderação na dieta e bebida. Ficou famoso por um regime de “redução” adequada a pessoas sedentárias, estudiosos, de nervos fracos, sugerindo um regime de leite de mula e sementes, amada por uns e odiada por outros. Para Cheyne, assim como para os médicos newtonianos, o corpo é como uma “máquina hidráulica”, razão principal para os médicos de dieta cuidar dos líquidos corpóreos. O médico especialista e racional podia criar um modelo matemático de fluxo de sangue e provocar algumas alterações através do controle dos fluidos. Essa expertise lhe permitia oferecer bons conselhos. Uma dieta inadequada tornaria os fluidos grossos e viçosos, levando à doença e até morte. Aconselhava sobre o que se devia ou não comer, ingestão de remédios quando necessário, a sangria e atividade física. Defensor da ingestão de água como único líquido da dieta, que, ao longo do tempo, lavava e eliminava as estruturas de micro mecanismos de alimentos animais e bebidas alcoólicas fortes, restaurando a tonicidade elástica e saudável dos vasos. Além das dietas, aconselhava tratamentos com mercúrio devido a sua estrutura micromecânica, utilizando-o para o tratamento do escorbuto, paralisia, gota e destemperos crônicos causados por excessos. Cheyne correspondia-se com seus pacientes através de cartas, nas quais dizia os cuidados que deviam ser seguidos, demonstrando a sua autoridade e expertise de forma sutil.
Neste capítulo, ainda relacionando as questões sobre dieta, ética, costumes e sociedade com um certo padrão de indivíduo saudável do início da era moderna, Shapin nos traz a imagem do especialista do médico Gerge Cheyne, detentor de um saber cientifico, em contraponto com o saber do senso comum, na figura do paciente. No diálogo que se apresenta entre médico e o paciente, entre a autoridade médica e leigo, vemos configurado a dicotomia entre esses discursos, que ainda vemos prevalecer dentro de nossa sociedade. O discursos científico, muitas vezes rebuscado e inacessível se distancia das falas que circulam o cotidiano popular. Entre médico e paciente o que se verifica até hoje é um embate sobre quem de fato pode obter o conhecimento sobre o próprio corpo e operar sobre ele. Embora o paciente possa ter maior reconhecimento sobre o seu próprio corpo o que vigora sobre ele é um discurso que lhe é exterior e muitas vezes destoante sobre aquilo que sente e sabe sobre si e sua corporalidade. Muitas vezes, o conhecimento do senso comum melhor opera sobre a cura dos indivíduos do conhecimento médico, tal como podemos verificar em comunidades e famílias brasileiras que se utilizam da medicina popular e das rezadeiras em muitas ocasiões.
Neste capítulo, Shapin enfatiza os hábitos alimentares da Era Moderna, especificamente, na Inglaterra, onde os mesmos estavam diretamente ligados aos aspectos sociais, éticos, morais e religiosos, podendo ser observado em continuidade do capítulo antecedente, que a ênfase no capítulo em questão dá-se em detrimento da influência médica e aderência dos filósofos da época, visto que os argumentos no decorrer do texto nos faz refletir o quanto os hábitos alimentares ou uma dieta “moderada” pode influenciar nas condições sociais, éticas e morais de um indivíduo, seja cavalheiros ou cortesões.
Particularmente, sou favorável a uma dieta que não limite as preferências gastronômica do indivíduo, exceto, quando a alimentação específica comprovadamente apresente riscos consideráveis de vida.
Este capítulo traz uma narrativa sobre a dialética senso comum e expertise nos mostrando o quão somos influenciados e nos deixamos influenciar pelo meio em que vivemos. Historicamente o senso comum foi sendo alterado/ressignificado por diversos fatores, mas continua sendo um fator para direcionar o modo de vida de um povo e sua localidade. Encontrei o artigo : Discursos e a Construção do Senso Comum sobre Alimentação a Partir de uma Revista Feminina e achei muito interessante, onde através de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória , foi realizada a análise f análise do discurso contida na capa de uma revista feminina em doze exemplares publicados no ano de 2007. Destaco o texto de algumas das capas: “Casar engorda? Camila Rodrigues prova que não” (abril) , “Íris e Alemão: ela se transformou para conquistar a fama e o coração deste gato” (junho) e “Xuxa 10 kg mais magra, 44 anos e corpinho de 20”. Capas diversas, com celebridades diferentes, mas no fundo a mesma mensagem, passando para seus leitores a ideia de que ser saudável está atrelado ao fato de ter um corpo perfeito e mais do que isso que é uma condição para alcance e manutenção de um bom relacionamento. É necessário sermos críticos , de modo que usemos nossa expertise para não nos rendermos ao senso comum e termos nosso lugar de fala, independente do que seja considerado padrão.
Referência: TEO, Carla Rosane Paz Arruda. Discursos e a construção do senso comum sobre alimentação a partir de uma revista feminina. Saude soc. [online]. 2010, vol.19, n.2, pp.333-346. ISSN 0104-1290. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902010000200010.
A leitura deste capítulo aborda as várias divergências e limiares entre o senso comum, a expertise e até onde a autoridade de alguém podia se construir dentro das questões medicinais. Focando especialmente no médico Gerge Cheyne.
ResponderExcluirLer este capítulo foi um verdadeiro teste de autocontrole pessoal para que eu me prevenisse de mentalmente criticar cada decisão médica que Cheyne tomava, ou para não desdenhar mentalmente de seu foco quase exclusivo nas dietas como remédio para todos os tipos de aflições possíveis. Afinal, seja qual fosse minha opinião no curso do texto, uma coisa é fato, Cheyne conseguiu mesmo assim construir sua credibilidade tanto por um grau de expertise quanto por um grau de intimidade que ele criava com seus pacientes. Ao ponto de talvez até mesmo a manipulação emocional se tornar um artifício para que sua autoridade médica fosse confiada acima da "autoridade" do próprio paciente acerca de seus males. Coisa que Shapin denota no começo de seu texto como sendo o reconhecido e aceito "senso comum" dentro do meio da medicina, mas que ele acaba ao mesmo tempo abandonando pelas páginas seguintes para dar lugar apenas à análise dos métodos de Chayne em fazer sua expertise valer.
Honestamente eu gostaria de que Shapin tivesse tido em mãos algum exemplo melhor de embate entre Cheyne e seus pacientes, onde ambos o senso comum e a expertise demonstrassem claramente brigar pela "última palavra". Mas como este não foi o caso, talvez então eu deva apenas me contentar com o fato de que outros exemplos de cenários idênticos a este jamais irão ser eximidos pelo tempo, se repetindo até hoje na forma de disputas entre aqueles que detém o conhecimento generalizado, e aqueles que detém o conhecimento individual -independente do contexto no qual as pessoas se encontrem.
Expertise ou senso comum. Fico pensando em nosso padrão acadêmico que valoriza quase que predominantemente o conhecimento científico disciplinar em uma escola de medicina e como seria a medicina no século XVII, um equilíbrio entre a teoria e a prática, talvez. Shapin fala em senso comum, mas o que seria isto? A legitimidade de alguém julgar e decidir algo? Ou um conhecimento associado à uma expertise construída? Lembro de uma frase muito dita em família: ter saúde é uma questão de bom senso. Confesso que não lembro de lido nenhum artigo que se baseasse em referências que trabalhassem com senso comum em vez de do pensamento científico. Não ficou muito claro para mim se o Shapin coloca que os estudos científicos se iniciaram a partir de um conhecimento comum e depois foram se articulando com a investigação científica e acabaram se distanciando do conhecimento comum. Fiquei pensando em todos os livros de dietas existentes, nas redes sociais onde as pessoas compartilham receitas lowcarb, fazem apologia a jejum intermitente e toda sorte de informações na rede. Lembro das propagandas que tratam alguns alimentos industrializados como algo que sua saúde precisa – um Danoninho vale por um bifinho. Segundo informações do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UNB, em uma pesquisa realizada entre 2006 e 2007, 20% da programação das TVs eram ocupadas por publicidade e desse total 10% eram sobre alimentos. 72% das propagandas podiam ser divididas em 5 categorias de produtos: fast food, guloseimas e sorvetes; refrigerantes e sucos artificiais; salgadinhos de pacote e biscoito e bolos). Nos canais abertos e fechados, 44% do total das propagandas de alimentos é direcionado às crianças. Com este tipo de influência fica difícil pensar em conhecimento comum.
ResponderExcluirhttps://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/72-das-propagandas-de-alimentos-vendem-mas-opcoes-a-saude/5/14134
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ResponderExcluirO autor inicia o texto apontando que da Antiguidade até o início do século XX médicos e leigos compartilhavam um mesmo vocabulário, o que possibilitava uma importante interação entre médico e paciente. A partir daí, ele irá pensar sobre a relação entre expertise e prudência e quais as consequências disso para as relações de autoridade e confiança entre médico e paciente. Segundo Shapin, no início do período moderno os médicos compreendiam que “afirmar sua expertise não necessariamente significava que se havia deixado para trás o senso comum” (p. 293); do outro lado, os pacientes, “leigos”, também compreendiam que ninguém – nem mesmo o médico – podia conhecer melhor o seu próprio corpo do que eles mesmos. Para o autor, essa perspectiva – a de que o conhecimento do senso comum “dá conta do recado”, sem ser necessário o conhecimento médico – fica ainda mais explícita no âmbito do conhecimento sobre dieta, no qual senso comum e expertise se aproximam ainda mais. Shapin analisa então o caso empírico do médico de dietas George Cheyne, através de cartas trocadas entre ele e dois de seus pacientes. A partir daí, o autor busca compreender como a expertise médica e os casos específicos dos pacientes se inter-relacionam no cotidiano e como credibilidade, prudência e autoridade se apresentam na forma de conselhos médicos práticos. O caso de Cheyne se mostra particularmente interessante por sua abordagem “radical” e polêmica – o regime de leite-e-sementes, em determinados casos. Por ir contra o “senso comum” vigente, essa abordagem radical exigia do médico estratégias para assegurar autoridade e adquirir o consentimento do paciente. Tais estratégias passavam por argumentação de equilíbrio e bom senso, ou seja, o uso do Meio Termo mesmo no âmbito de uma dieta aparentemente radical; a utilização de linguagem do senso comum; a apresentação dos muitos casos de sucesso; o encorajamento dos pacientes; a informação de que ele próprio havia utilizado a prática, etc. Percebemos, assim, que a expertise de filosofia natural, nesse contexto, era a menos importante. Ainda que ela fosse acionada (como argumentação com o paciente) em alguns poucos casos específicos, de maneira geral essa expertise só interessava aos pares (médicos). Para os leigos, interessava outro tipo de expertise: o que Shapin chama de expertise da prudência (conhecimento prático), em contraposição à expertise ontológica (conhecimento teórico). Nas palavras de Shapin, aos pacientes interessava que a expertise fosse “posta em relação com seus casos – de maneira humanitária, conscienciosa e eficaz” (p. 315). E para tal, a maneira de se comunicar não podia ser a mesma daquela utilizada junto aos pares. No caso de Cheyne, as cartas foram esse mecanismo. Elas “não apenas diziam que ele se importava com seus pacientes individualmente; elas também eram uma maneira importante pela qual esse cuidado ganhava forma” (p. 316). Trazendo para os dias de hoje, fiquei pensando: em que momento os médicos perderam a habilidade de se aproximarem de seus pacientes, serem empáticos, e falarem em uma linguagem compreensível? Reclamam que cada vez mais pessoas se automedicam e dispensam a ida ao médico, mas não fazem um processo de autorreflexão da própria prática, no que diz respeito ao relacionamento com os pacientes. Fico pensando também que muitos cientistas que se colocam à disposição de se comunicarem com o público de uma forma até mesmo “pop”, eu diria, participando, por exemplo, de programas televisivos, são menosprezados por seus pares. Porém, o que mais falta entre cientistas é justamente essa capacidade de “descer do salto” e então fazer uma comunicação efetiva, não no sentido de convencimento das benesses da ciência, mas de diálogo. Deveríamos voltar a falar a mesma linguagem do senso comum, como no início do século XX. Falar menos “cientifiquês”, como disse certa vez o geógrafo Milton Santos, em um programa “pop”...
ResponderExcluirNeste capítulo, o autor nos fala sobre a expertise médica, no início do século XVIII. Em especial, sobre George Cheyne.
ResponderExcluirComo nos capítulos anteriores, ratifica a importância da dieta (regime ou higiene) do indivíduo, bem como da temperança: tudo deveria ser feito com moderação, pois a temperança era considerada uma das virtudes clássicas e através da qual se manteria corpo e mente equilibrados.
Muito citada pelos autores do início do período moderno, a Regra de Celso “defendia que indivíduos que tivessem boa saúde no dia a dia não precisariam de médico e nem de se submeter às restrições e regras médicas”. (pag. 293)
George Cheyne destacou-se não só como médico, mas também como escritor. E o centro dos seus aconselhamentos era a dieta, mas também fornecia diagnósticos, prognósticos e receitas terapêuticas. Utilizava conceitos newtonianos para descrever o funcionamento do corpo humano e explicar como surgiam determinadas doenças, em função de não observância da temperança e/ou de uma dieta inadequada.
Segundo Cheyne, “o corpo humano é uma máquina hidráulica, um compacto de canos. A “elasticidade” dos sólidos do corpo era uma herança paterna bem durável – a qual não se alterava facilmente com o tempo (embora isso fosse impossível). Os líquidos corpóreos advinham da mãe e podiam se modificar prontamente, de acordo com o modo de vida e, em especial, com a comida e a bebida. Essa é a explicação filosófica geral para o motivo pelo qual a tarefa primordial do médico de dietas era cuidar dos líquidos corpóreos: se esses pudessem ser corrigidos por meio de conselhos sobre dieta de especialistas, “eles com o tempo... retificarão e confirmarão os sólidos os Sólidos em suas próprias Situação e Tonicidade”. (pag. 298)
LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
ResponderExcluirAluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa
Reação ao capítulo 13 do livro “Nunca Pura”
Como muitos de sua classe, George Cheyne estava muito acima do peso. Como era comum na época, Cheyne visitava frequentemente seus pacientes nas tabernas populares da cidade. Sendo um homem alegre e espirituoso, ele era muito apreciado por seus clientes e, com frequência, se juntava a eles para comer e beber - dentro e fora do horário de trabalho. Cheyne tornou-se, em suas próprias palavras, amigo de "companheiros de copo, cavalheiros mais jovens, os de vida livre", porque, como eles, gostava de "comer luxuriosamente e ingerir muita bebida". No entanto, esse estilo de vida cobrou seu preço. Em 1705, com apenas 34 anos, Cheyne tinha sérios problemas de saúde. Sua dieta rica em comida e bebida fez com que ele aumentasse de peso até 180 quilos. Cheyne estava deprimido, sem fôlego e letárgico. Ele também quase morreu do que chamou de "paroxismos vertiginosos", também conhecidos como ataque cardíaco e derrame. Cheyne resolveu então mudar de vida: parou de beber e passou a se alimentar somente de leite e vegetais. Sua dieta atraiu uma variedade de clientes elegantes e influentes. Cheyne aconselhou os aristocratas como perder peso. Ele se tornou o primeiro médico de dieta. Seus livros e sua prática fizeram dele um homem rico. Os métodos de Cheyne incentivavam a disseminação do vegetarianismo entre as classes literárias. Os livros de Cheyne permaneceram populares por mais de 50 anos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirNeste capítulo o autor esclarece o quão difícil foi a tarefa de cunhar a nutrição e a dietética com um viés científico, categorizado, superior, digno de ser seguido e obedecido. Expõe a realidade dos físicos frente ao que debateu sobre a dificuldade encontrada na época em discordar dos cavalheiros. Cita o exemplo do médico George, que atendia diversos pacientes de classe média a alta, em um sistema que descrevo como de troca de conteúdo, no sentido de que ele considerava seus pacientes como detentores de um conhecimento próprio inerente ao funcionamento de seu próprio corpo, também dignos do mesmo patamar de validade que os seus, advindos de estudo, de experiência, de vivência. Creio que as discussões desse capítulo sejam muito relacionadas a questão da confiabilidade da produção do conhecimento, sendo o médico em questão digno ou não de confiança, digno ou não de um lugar de escuta.
ResponderExcluirPOSTANDO PELA EDEL VALY (como sugerido pelo Edu)!
ResponderExcluirContinuando a relacionar à dieta com a ciência , a moral, o quotidiano, seja dos filósofos, cavalheiros ou de quem contratava serviços médicos, o autor continua nos instigando sobre questões relacionadas à saúde e comportamentos do Século 18, nos lembrando que o papel do médico se equilibrava entre a expertise e o bom senso. À época, as pessoas leigas que tinham condições de pagar serviços médicos, costumavam lidar com o vocabulário médico, ao ponto que alguns médicos afirmavam que muitos leigos eram especialistas em si próprios.
Shapin, neste capítulo, espera contribuir para o entendimento das relações entre senso comum e expertise, trazendo a título de exemplo, o caso de George Cheyne (1671-17430 médico, filósofo e matemático escocês, especializado em dietas. O autor traz questionamentos sobre a apresentação da expertise, tanto na obra de Cheyne como na prática, além do papel da expertise médica diante do paciente.
À expertise do médico somava-se o senso comum ou o que as pessoas acreditavam ser senso comum, em base às suas crenças e práticas.
No final do Século XVII, uma vez que os médicos conheceram as microestruturas e os micro mecanismos da nutrição e o corpo, entendia-se que podiam melhor aconselhar. Neste contexto, Cheyne inicia a sua carreira em Londres com muito sucesso, trazendo uma nova teoria sobre febres, inspirado por seu mentor Pitcairne e, seguindo os em voga princípios matemáticos e newtonianos, aos quais, anos depois, referiu-se como audácia e entusiasmo excessivo. Nesta segunda fase mais madura, dedicou-se a doenças crônicas, aconselhando moderação na dieta e bebida. Ficou famoso por um regime de “redução” adequada a pessoas sedentárias, estudiosos, de nervos fracos, sugerindo um regime de leite de mula e sementes, amada por uns e odiada por outros. Para Cheyne, assim como para os médicos newtonianos, o corpo é como uma “máquina hidráulica”, razão principal para os médicos de dieta cuidar dos líquidos corpóreos. O médico especialista e racional podia criar um modelo matemático de fluxo de sangue e provocar algumas alterações através do controle dos fluidos. Essa expertise lhe permitia oferecer bons conselhos. Uma dieta inadequada tornaria os fluidos grossos e viçosos, levando à doença e até morte. Aconselhava sobre o que se devia ou não comer, ingestão de remédios quando necessário, a sangria e atividade física. Defensor da ingestão de água como único líquido da dieta, que, ao longo do tempo, lavava e eliminava as estruturas de micro mecanismos de alimentos animais e bebidas alcoólicas fortes, restaurando a tonicidade elástica e saudável dos vasos. Além das dietas, aconselhava tratamentos com mercúrio devido a sua estrutura micromecânica, utilizando-o para o tratamento do escorbuto, paralisia, gota e destemperos crônicos causados por excessos.
Cheyne correspondia-se com seus pacientes através de cartas, nas quais dizia os cuidados que deviam ser seguidos, demonstrando a sua autoridade e expertise de forma sutil.
Neste capítulo, ainda relacionando as questões sobre dieta, ética, costumes e sociedade com um certo padrão de indivíduo saudável do início da era moderna, Shapin nos traz a imagem do especialista do médico Gerge Cheyne, detentor de um saber cientifico, em contraponto com o saber do senso comum, na figura do paciente. No diálogo que se apresenta entre médico e o paciente, entre a autoridade médica e leigo, vemos configurado a dicotomia entre esses discursos, que ainda vemos prevalecer dentro de nossa sociedade. O discursos científico, muitas vezes rebuscado e inacessível se distancia das falas que circulam o cotidiano popular. Entre médico e paciente o que se verifica até hoje é um embate sobre quem de fato pode obter o conhecimento sobre o próprio corpo e operar sobre ele. Embora o paciente possa ter maior reconhecimento sobre o seu próprio corpo o que vigora sobre ele é um discurso que lhe é exterior e muitas vezes destoante sobre aquilo que sente e sabe sobre si e sua corporalidade. Muitas vezes, o conhecimento do senso comum melhor opera sobre a cura dos indivíduos do conhecimento médico, tal como podemos verificar em comunidades e famílias brasileiras que se utilizam da medicina popular e das rezadeiras em muitas ocasiões.
ResponderExcluirNeste capítulo, Shapin enfatiza os hábitos alimentares da Era Moderna, especificamente, na Inglaterra, onde os mesmos estavam diretamente ligados aos aspectos sociais, éticos, morais e religiosos, podendo ser observado em continuidade do capítulo antecedente, que a ênfase no capítulo em questão dá-se em detrimento da influência médica e aderência dos filósofos da época, visto que os argumentos no decorrer do texto nos faz refletir o quanto os hábitos alimentares ou uma dieta “moderada” pode influenciar nas condições sociais, éticas e morais de um indivíduo, seja cavalheiros ou cortesões.
ResponderExcluirParticularmente, sou favorável a uma dieta que não limite as preferências gastronômica do indivíduo, exceto, quando a alimentação específica comprovadamente apresente riscos consideráveis de vida.
Este capítulo traz uma narrativa sobre a dialética senso comum e expertise nos mostrando o quão somos influenciados e nos deixamos influenciar pelo meio em que vivemos. Historicamente o senso comum foi sendo alterado/ressignificado por diversos fatores, mas continua sendo um fator para direcionar o modo de vida de um povo e sua localidade.
ResponderExcluirEncontrei o artigo : Discursos e a Construção do Senso Comum sobre Alimentação a Partir de uma Revista Feminina e achei muito interessante, onde através de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória , foi realizada a análise f análise do discurso contida na capa de uma revista feminina em doze exemplares publicados no ano de 2007.
Destaco o texto de algumas das capas: “Casar engorda? Camila Rodrigues prova que não” (abril) , “Íris e Alemão: ela se transformou para conquistar a fama e o coração deste gato” (junho) e “Xuxa 10 kg mais magra, 44 anos e corpinho de 20”.
Capas diversas, com celebridades diferentes, mas no fundo a mesma mensagem, passando para seus leitores a ideia de que ser saudável está atrelado ao fato de ter um corpo perfeito e mais do que isso que é uma condição para alcance e manutenção de um bom relacionamento.
É necessário sermos críticos , de modo que usemos nossa expertise para não nos rendermos ao senso comum e termos nosso lugar de fala, independente do que seja considerado padrão.
Referência: TEO, Carla Rosane Paz Arruda. Discursos e a construção do senso comum sobre alimentação a partir de uma revista feminina. Saude soc. [online]. 2010, vol.19, n.2, pp.333-346. ISSN 0104-1290. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902010000200010.