Afinal, podemos considerar que o conhecimento é o resultado de como o "conhecimento" se apresenta ou seria como a mente do cientista representa/apresenta o conhecimento? E o não-humano, onde fica nisso? Como pergunta Shapin (p.241\0: como são feitas estas representações, com que materiais culturais e para que fins? Gosto como Shapin traz conceitos do CTS para o texto colocando o processo tecnocientífico para dentro de um contexto social, as fronteiras entre o que é ciência e o que é social e o próprio fato/artefato sendo dissipada. "Como descorporificados tem sido um dos recursos principais de que dispomos para demonstrar a verdade, a objetividade e o poder do conhecimento" ( p.241), cita Shapin ao falar das representações do conhecimento trazidas por cientistas. O ideal ascético, cristão, negando as necessidades do corpo para alcançar conhecimento espiritual, entendo que não se perpetuou, talvez apenas em algumas vertentes mais ortodoxas. Mas fico perguntando o quanto é orgulho ou o quanto é fé, conforme Shapin sugeriu. Acredito que a refeição ainda mantém sua função social. Um complexo sistema: ritos, hábitos e porque não dizer, poder. Vide o poder de ser santo e ter a capacidade de se comunicar com Deus. Confesso que ainda não tinha pensado, nem lido a respeito deste "ritual" do jejum também como um caminho para os filósofos alcançarem a criatividade, inovação e genialidade (p.258). Até que ponto estas histórias se sustentam? Postado Por Maria Cristina
Neste capítulo, o autor parte de discussões sobre os hábitos alimentares de filósofos para abordar a essência destes indivíduos e a ideia de uma separação completa entre corpo e mente, ou seja, entre as necessidades fisiológicas e carnais e o exercício intelectual de busca ou construção do conhecimento científico. Assim, para ele, as histórias sobre os hábitos alimentares dos filósofos e cientistas - que em sua maioria indicam ou uma postura blassé dos mesmos com a alimentação ou uma valorização de uma alimentação comedida - exemplificam a noção de que estes sujeitos e o conhecimento que produzem são descorporificados; ou que o corpo seria um empecilho, um dificultador, para o livre pensamento dos filósofos. Neste sentido, a postura ideal de um corpo para a busca intelectual – e, portanto, um indicador de um verdadeiro pensador - era ter uma dieta frugal, dando pouca importância para necessidades e prazeres desta natureza e assim dedicando-se completamente ao conhecimento. É interessante notar que, conforme o autor demonstra ao longo do capítulo, essa visão dicotômica é característica não apenas de diversas vertentes de compreensão do conhecimento científico, como também no âmbito da religiosidade – mais especificamente no cristianismo. Assim, os prazeres carnais são tanto um empecilho para o crescimento intelectual quanto espiritual. Ao final do capítulo, o auto indica que esta visão seria pouco “popular” nos dias de hoje: desenvolvimento intelectual e necessidades corpóreas não mais seriam inconciliáveis, substituindo-se a negação do corpo pelo o que Shapin chama de expertise e de policiamento rigoroso. Porém, eu fico me perguntando até que ponto as coisas realmente mudaram. Em algum momento do texto é abordado a questão da melancolia. Faço uma correlação quase direta com os problemas de depressão na pós-graduação, tão debatidos hoje em dia, e já vivenciei ou ouvi relatos de discursos que vão para o lado da ideia de que o cientista deve viver apenas para a pesquisa, mesmo que isso prejudique sua saúde física ou mental. Já ouvi, por exemplo, que virar a noite estudando é algo absolutamente normal. Penso, então, que esta concepção de que o cientista deve abnegar de todos as suas necessidades físicas e materiais e de que tudo o que não esteja voltado para a busca do conhecimento é perda de tempo não é tanto assim algo do passado...
Após a leitura deste capítulo, muito me impressionou o quanto de informação Shapin conseguiu tirar apenas do conceito dos hábitos alimentares dos Filósofos e religiosos nos séculos passados. Onde eu aguardei sem muito sucesso porém, o momento que ele iria citar a pouca empatia pela alimentação destas pessoas como sendo uma verdadeira materialização de suas personalidades obsessivas quanto à pesquisa. Ignorando muito de suas outras necessidades, e criando preceitos que justificariam estas suas falhas de caráter como sendo atos divinos ou heroicos para um bem maior -e neste ponto, é que talvez eu entenda então os seus argumentos no texto sobre o uso do orgulho por aquelas pessoas como maior motivador. Afinal, o que melhor usar para esconder de seu ego um defeito tão grande quanto a obsessão, senão transvestindo ela de um "sacrifício nobre" para um bem maior? Só que aí entramos na segunda parte desta questão, que seria o quão bem aceito e motivado essas ações também vieram a se tornar socialmente. Tendo sido mais fácil para aquelas pessoas questionarem primeiro Deus sobre a fragilidade dos Filósofos, do que questionarem os próprios Filósofos diretamente quanto à sua má nutrição. E nesse ponto, acredito que Shapin poderia ter gasto um pequeno tempo para avaliar a lógica por trás das razões para tal motivação popular. Podem haver erros na minha forma de analisar todo este cenário, mas creio que para uma época onde a quantidade de comida não era tão excessiva quanto é hoje, focar os recursos da sociedade em pessoas que necessitavam de força física para lutar ou fazer trabalhos manuais era muito mais útil do que gastá-la com sua casta mais abastada e de demanda de produção bem menor. O que em resumo significaria que os Filósofos foram simplesmente estimulados e manipulados sem perceber, a tomar a atitude mais conveniente para toda uma sociedade: gastando menos recursos básicos, em troca de terem seus egos inflados pelo reconhecimento de tal "gesto purificador" em seus meios de trabalho.
Capítulo 11 O Filósofo e a Galinha: Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado. Shapin abre uma discussão a respeito dos hábitos dos filósofos, no intuito de conhecer os hábitos alimentares dos filósofos e religiosos da época. Dessa forma compreender a relação entre as necessidades do corpo e a construção do conhecimento. Qual seria a o comportamento adequado do corpo para facilitar o resultado científico esperado. De acordo com seus estudos os prazeres da carne podem ser empecilho para o desenvolvimento intelectual. Será que essa ideia mudou?
O autor neste capítulo demonstra a questão social do campo CTS ao se associar os hábitos alimentares dos filósofos e religiosos, apresentei a reação da frase “Nós somos o que comemos”, diversos autores afirmam que a filosofia tinha a função de ensinar as pessoas a interpretar corretamente seus próprios impulsos físicos e, também, a dominá-los, comer menos, por exemplo, é uma forma de autocontrole, por outro lado buscando uma associação da filosofia e religião temos “"Não é o que entra pela boca do homem o que contamina, mas o que sai da boca, isto sim, contamina o homem" (Mateus 15:11), em tempos de intolerância religiosa tal discursão ou a forma que Shapin trata no texto pode gerar sérios problemas sociais.
LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE Aluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa Reação ao capítulo 11 do livro “Nunca Pura”
Ao ler este capítulo, me lembrei de um texto sobre Nietzsche e o ideal ascético que li há algum tempo. O ascetismo é uma filosofia de vida que prega viver uma vida com austeridade dos prazeres mundanos, com a intenção de conquistar o máximo domínio espiritual. Os prazeres carnais, ou seja, que são naturais dos seres humanos, seriam considerados pecaminosos e deveriam ser abnegados. “Um estudioso dos nossos tempos, com um rápido consumo de energia, iria simplesmente se autodestruir na dieta de Cornaro. Acredite em mim, eu tentei.” A frase é de Friedrich Nietzsche. Cornaro foi um estudioso italiano que publicou um livro de conselhos para uma vida saudável no século XVI. Ele recomendava que a alimentação fosse mínima e, segundo relatos, chegou a comer apenas uma clara de ovo por dia. Outra frase de Nietzsche: “Ambos, a ciência e o ideal ascético, acham-se no mesmo terreno – já o dei a entender -: na mesma superestimação da verdade, e com isso são necessariamente aliados – de modo que, a serem combatidos; só podemos combatê-los e questioná-los em conjunto. Uma avaliação do ideal ascético conduz inevitavelmente a uma avaliação da ciência: mantenham os olhos e os ouvidos abertos para esse fato” O ideal ascético é, portanto, uma negação desta vida em prol de uma vida futura, eterna e feliz. Uma proposta obviamente ilusória na visão de mundo ateísta, um nada. Nietzsche conclui: “o homem preferirá ainda querer o nada a nada querer...”
Neste capítulo, o autor relaciona os padrões de alimentação e o status inerente a eles com a validação da produção de conhecimento. Achei interessante quando ele expõe que existiu uma linha de raciocínio que cogitava que o conhecimento poderia ser descorporificado, ou seja, desconectado com a corporeidade de seus produtores, como se a conexão com a esfera corporal diminuísse a validade, importância, pertinência, pureza do conhecimento produzido. Me chamou bastante atenção, na página 250, a culminância da discussão sobre a importância da alimentação no seguinte argumento: “e mesmo que se prometesse uma longa vida para os que corrigissem seus hábitos de dieta: estar vivo é algo grande demais?” Considerei esse argumento genial, porque em geral penso sobre a vida como sendo um questionamento constante de sua pertinência: estar vivo e, durante a vida, trabalhar incansavel e incessantemente em prol dela, é a melhor forma de vivê-la? Para mim, esta foi a questão mais interessante deste capítulo.
POSTANDO PELA EDEL VALY (como sugerido pelo Edu)! Em este Capítulo, Shapin, a partir de elementos simples sobre alimentação e outras figuras simbólicas, apresenta com detalhes até curiosos, estórias relacionadas à corporificação, principalmente ligadas aos filósofos naturais de início da Era Moderna, Robert Boyle, Henry More, Isaac Newton e Henry Cavendish, através de diversos contextos de conhecimento, dos mais antigos até a modernidade tardia. Inicia com Sócrates, para quem o filósofo é um tipo de pessoa diferente, que consegue liberar sua mente do corpo em um grau maior que os homens comuns: “Se alguma vez viermos a ter conhecimento puro de algo, temos que nos livrar do corpo e contemplar as coisas em si mesmas com a alma em si...Filósofos de verdade fazem do morrer sua profissão”. Já no Cristianismo, a fome e comida aparecem em inúmeros textos, que expressam a negação das necessidades do corpo para alcançar o conhecimento espiritual. No Período Moderno, questiona-se como os filósofos antigos viveram e como deveriam viver os sábios modernos. No final do Século XVII, Montaigne manifesta não se ater a regras sobre ingestão de alimentos e somente moderar o consumo segundo a força do apetite; em tanto que Francis Bacon, apreciava os benefícios das dietas leves de outrora, adotando a doutrina de Meio-Termo, sem extremos e conforme os hábitos culturais da época. É muito interessante como a relação entre a atividade intelectual e a alimentação nestes diferentes períodos, caracterizou-se por um certo estigma sobre a figura do filósofo. Dizia-se que era possível identificar um filósofo por seu aspecto corpóreo, sua forma de vida, assim como esse aspecto e forma de vida, era uma maneira de se apresentar, os que que pretendiam ser filósofos. Segundo Shapin, Isaac Newton retratava o filósofo descorporificado e a estória de separação da mente, entregue à verdade pela sua abstinência à comida. O autor observa, que a descorporificação não é um padrão dominante dos filósofos. Filósofos da modernidade analisam, interpretam e rejeitam a ideia de descorporificação como condição para produzir e reconhecer a verdade. O próprio Hume, no século XVIII, foge ao que poderia ser considerado um padrão. Todas as estória que falam sobre os “corpos filosóficos” sejam ou não reais, servem como testemunhos da constituição de corpos em que se pode construir conhecimento, representando normas de conhecimento filosófico e do conhecedor da filosofia. Na modernidade tardia, a descorporificação vem perdendo sentido e força cultural. Algumas correntes da sociologia afirmam não existir motivo para diferenciar os cientistas dos demais.
HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS E DAS TÉCNICAS E EPISTEMOLOGIA (HCTE)/UFRJ DISCIPLINA LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE PROF. EDUARDO NAZARETH ALUNO: RAQUEL BELMIRA DA SILVA
Relato apresentação do Capítulo 11: “O Filósofo e a Galinha – Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado”, dia 28/11/2019. Embora estivesse sem suporte audiovisual, iniciei a apresentação comentando sobre essa parte do livro, que nos remete ao modo de alimentação dos filósofos naturais, scholars, cavalheiros, religiosos, membro da realeza. Na verdade, nos fala da importância da dieta e como era a relação deles com os alimentos. Cita alguns exemplos das preferências de alimentação de alguns filósofos: preferiam alimentos mais leves, magros e em pequena quantidade. Ainda diziam que os “amantes da verdade” negam as demandas do estômago. Cito um paralelo apresentado por Sócrates, comparando o modo de vida dos filósofos e das cigarras, que cantam e se esquecem de comer e beber e morrem sem perceber. Para Sócrates “filósofos de verdade fazem do morrer sua profissão”. Prof. Eduardo demonstrou seu incômodo com as expressões “amantes da verdade” “filósofos de verdade”, pois o que seriam “filósofos de verdade”? Só os estudiosos e religiosos seriam “amantes da verdade”? Qualquer pessoa que se dedique a estudar algo não poderia ser considerado “amante da verdade”? De fato, vale a reflexão. Chamei atenção para a observação, do autor, sobre o hábito de Pitágoras e seus seguidores, que incentivavam o vegetarianismo e proibia o consumo de grãos, por consideram que tanto a carne animal, quanto os grãos produziam fluídos nocivos que corrompiam o corpo e o tornava impuro e inadequado para a atividade intelectual. De um modo geral, o autor nos remete à ideia de moderação. Inclusive, desde os Pré-Socráticos, o conselho era o mesmo: para garantir saúde: moderação. Ambos os extremos: glutonia ou jejum excessivo seriam desastres moral e fisiológico. Como contraponto, temos Bacon que defendia alguns excessos: “com respeito à quantidade de carne e bebida, ocorre-me que algo de excesso é bom, por vezes, para a irrigação do corpo; portanto, o banquetear imoderado e o beber em quantidade não devem ser de todo proibidos”. Agradeço a todos que enriqueceram o debate e me ajudaram com a discussão do tema.
“O Filósofo e a Galinha – Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado”, título irônico e muito bem escolhido para trazer a questão dos atravessamentos culturais e históricos que a ciência “nunca pura” sempre está implicada. A discussão que envolvem diversos discursos que envolvem os sujeitos de ciência e a produção do conhecimento ao longo da história das ciências, deflagram muito dos “misticismos” e “crenças” que percorrem (e muitas vezes persistem a despeito das tentativas de desconstruição de certos dogmatismos) nossa forma de enxergar os atores do mundo científico e a condição de possibilidade de suas produções. O tema da dieta, do jejum, dos sacrifícios pessoais e da renúncia ao mundano com o afastamento dos prazeres da corpo para que o conhecimento genuíno seja produzido, é apenas um dos discursos ainda ancorado no imaginário sobre quem são os "verdadeiros" amantes do saber, sejam filósofos, cientistas ou aqueles que trabalham em nome do saber e que precisam fazer sacrifícios, como se esse conhecimento fosse algo desvinculado do mundo real e do vivido da carne. Esse “conhecimento descorporificado” é algo tão ilusório e improvável, quanto a fantasia de podermos levitar ou atingir o nirvava, ou mesmo o mundo eidético de Platão, com o simples subjugar das paixões do corpo. Mas do que nunca sabemos hoje que tal dicotomia só cabe existir em teorias metafísicas desprovidas da experiência de vida dos seres corporificados; sustentamos hoje que toda produção de ideias ou conhecimento só se dá a partir do metabolismo de nossas vivências no cotidiano!
Lendo o capítulo 11, Shapin nos faz refletir e analisar a respeito dos hábitos alimentares dos filósofos e religiosos da época, nos remetendo a moderação, onde a mesma induz a compreensão do autocontrole e consequentemente o orgulho da renúncia a vida secular ou mundana, bem como sacrifícios pessoais, isolando-se dos prazeres carnais para ascender o verdadeiro conhecimento dos que se intitulam acima dos mortais como senhores do “Saber”, tais como filósofos, cientistas e religiosos.
Shapin faz uma narrativa histórica desde o século XVIII sobre a forma como a comida está relacionada com a história. Seja para contar uma anedota, um mito ou até para entender um determinado contexto a comida está sempre presente desde os primórdios. Desde a Bíblia vemos a comida como uma forma de representatividade, seja através de parábolas , de momentos importantes como a Santa Ceia e em cada momento ela possui um significado importante no contexto. Shapin busca apresentar através de diferentes momentos históricos que a descoporificação vem carregada de uma corporificação que é representada pelo conhecimento que o produz, ou seja, através de diferentes valores, sejam eles locais, sociais , psicológicos, religiosos, etc . E ainda nos dias de hoje, são inúmeros os debates sobre a dialética comida e conhecimento, pois ela é carregada de controvérsias. Quem nunca descontou toda a sua ansiedade num belo lanche fast food repleto de calorias, gorduras,etc, mesmo t conhecimento sobre o que é bom ou ruim, pois entendemos que isso envolve uma série de fatores que vão além da comida e do conhecimento. No final das contas, continuamos como os filósofos na busca de entendermos nossas escolhas.
Afinal, podemos considerar que o conhecimento é o resultado de como o "conhecimento" se apresenta ou seria como a mente do cientista representa/apresenta o conhecimento? E o não-humano, onde fica nisso? Como pergunta Shapin (p.241\0: como são feitas estas representações, com que materiais culturais e para que fins?
ResponderExcluirGosto como Shapin traz conceitos do CTS para o texto colocando o processo tecnocientífico para dentro de um contexto social, as fronteiras entre o que é ciência e o que é social e o próprio fato/artefato sendo dissipada. "Como descorporificados tem sido um dos recursos principais de que dispomos para demonstrar a verdade, a objetividade e o poder do conhecimento" ( p.241), cita Shapin ao falar das representações do conhecimento trazidas por cientistas. O ideal ascético, cristão, negando as necessidades do corpo para alcançar conhecimento espiritual, entendo que não se perpetuou, talvez apenas em algumas vertentes mais ortodoxas. Mas fico perguntando o quanto é orgulho ou o quanto é fé, conforme Shapin sugeriu.
Acredito que a refeição ainda mantém sua função social. Um complexo sistema: ritos, hábitos e porque não dizer, poder. Vide o poder de ser santo e ter a capacidade de se comunicar com Deus.
Confesso que ainda não tinha pensado, nem lido a respeito deste "ritual" do jejum também como um caminho para os filósofos alcançarem a criatividade, inovação e genialidade (p.258). Até que ponto estas histórias se sustentam?
Postado Por Maria Cristina
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ResponderExcluirNeste capítulo, o autor parte de discussões sobre os hábitos alimentares de filósofos para abordar a essência destes indivíduos e a ideia de uma separação completa entre corpo e mente, ou seja, entre as necessidades fisiológicas e carnais e o exercício intelectual de busca ou construção do conhecimento científico. Assim, para ele, as histórias sobre os hábitos alimentares dos filósofos e cientistas - que em sua maioria indicam ou uma postura blassé dos mesmos com a alimentação ou uma valorização de uma alimentação comedida - exemplificam a noção de que estes sujeitos e o conhecimento que produzem são descorporificados; ou que o corpo seria um empecilho, um dificultador, para o livre pensamento dos filósofos. Neste sentido, a postura ideal de um corpo para a busca intelectual – e, portanto, um indicador de um verdadeiro pensador - era ter uma dieta frugal, dando pouca importância para necessidades e prazeres desta natureza e assim dedicando-se completamente ao conhecimento. É interessante notar que, conforme o autor demonstra ao longo do capítulo, essa visão dicotômica é característica não apenas de diversas vertentes de compreensão do conhecimento científico, como também no âmbito da religiosidade – mais especificamente no cristianismo. Assim, os prazeres carnais são tanto um empecilho para o crescimento intelectual quanto espiritual. Ao final do capítulo, o auto indica que esta visão seria pouco “popular” nos dias de hoje: desenvolvimento intelectual e necessidades corpóreas não mais seriam inconciliáveis, substituindo-se a negação do corpo pelo o que Shapin chama de expertise e de policiamento rigoroso. Porém, eu fico me perguntando até que ponto as coisas realmente mudaram. Em algum momento do texto é abordado a questão da melancolia. Faço uma correlação quase direta com os problemas de depressão na pós-graduação, tão debatidos hoje em dia, e já vivenciei ou ouvi relatos de discursos que vão para o lado da ideia de que o cientista deve viver apenas para a pesquisa, mesmo que isso prejudique sua saúde física ou mental. Já ouvi, por exemplo, que virar a noite estudando é algo absolutamente normal. Penso, então, que esta concepção de que o cientista deve abnegar de todos as suas necessidades físicas e materiais e de que tudo o que não esteja voltado para a busca do conhecimento é perda de tempo não é tanto assim algo do passado...
ResponderExcluirApós a leitura deste capítulo, muito me impressionou o quanto de informação Shapin conseguiu tirar apenas do conceito dos hábitos alimentares dos Filósofos e religiosos nos séculos passados. Onde eu aguardei sem muito sucesso porém, o momento que ele iria citar a pouca empatia pela alimentação destas pessoas como sendo uma verdadeira materialização de suas personalidades obsessivas quanto à pesquisa. Ignorando muito de suas outras necessidades, e criando preceitos que justificariam estas suas falhas de caráter como sendo atos divinos ou heroicos para um bem maior -e neste ponto, é que talvez eu entenda então os seus argumentos no texto sobre o uso do orgulho por aquelas pessoas como maior motivador. Afinal, o que melhor usar para esconder de seu ego um defeito tão grande quanto a obsessão, senão transvestindo ela de um "sacrifício nobre" para um bem maior?
ResponderExcluirSó que aí entramos na segunda parte desta questão, que seria o quão bem aceito e motivado essas ações também vieram a se tornar socialmente. Tendo sido mais fácil para aquelas pessoas questionarem primeiro Deus sobre a fragilidade dos Filósofos, do que questionarem os próprios Filósofos diretamente quanto à sua má nutrição. E nesse ponto, acredito que Shapin poderia ter gasto um pequeno tempo para avaliar a lógica por trás das razões para tal motivação popular. Podem haver erros na minha forma de analisar todo este cenário, mas creio que para uma época onde a quantidade de comida não era tão excessiva quanto é hoje, focar os recursos da sociedade em pessoas que necessitavam de força física para lutar ou fazer trabalhos manuais era muito mais útil do que gastá-la com sua casta mais abastada e de demanda de produção bem menor. O que em resumo significaria que os Filósofos foram simplesmente estimulados e manipulados sem perceber, a tomar a atitude mais conveniente para toda uma sociedade: gastando menos recursos básicos, em troca de terem seus egos inflados pelo reconhecimento de tal "gesto purificador" em seus meios de trabalho.
Capítulo 11
ResponderExcluirO Filósofo e a Galinha: Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado.
Shapin abre uma discussão a respeito dos hábitos dos filósofos, no intuito de conhecer os hábitos alimentares dos filósofos e religiosos da época. Dessa forma compreender a relação entre as necessidades do corpo e a construção do conhecimento. Qual seria a o comportamento adequado do corpo para facilitar o resultado científico esperado. De acordo com seus estudos os prazeres da carne podem ser empecilho para o desenvolvimento intelectual. Será que essa ideia mudou?
O autor neste capítulo demonstra a questão social do campo CTS ao se associar os hábitos alimentares dos filósofos e religiosos, apresentei a reação da frase “Nós somos o que comemos”, diversos autores afirmam que a filosofia tinha a função de ensinar as pessoas a interpretar corretamente seus próprios impulsos físicos e, também, a dominá-los, comer menos, por exemplo, é uma forma de autocontrole, por outro lado buscando uma associação da filosofia e religião temos “"Não é o que entra pela boca do homem o que contamina, mas o que sai da boca, isto sim, contamina o homem" (Mateus 15:11), em tempos de intolerância religiosa tal discursão ou a forma que Shapin trata no texto pode gerar sérios problemas sociais.
ResponderExcluirLABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
ResponderExcluirAluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa
Reação ao capítulo 11 do livro “Nunca Pura”
Ao ler este capítulo, me lembrei de um texto sobre Nietzsche e o ideal ascético que li há algum tempo. O ascetismo é uma filosofia de vida que prega viver uma vida com austeridade dos prazeres mundanos, com a intenção de conquistar o máximo domínio espiritual. Os prazeres carnais, ou seja, que são naturais dos seres humanos, seriam considerados pecaminosos e deveriam ser abnegados.
“Um estudioso dos nossos tempos, com um rápido consumo de energia, iria simplesmente se autodestruir na dieta de Cornaro. Acredite em mim, eu tentei.” A frase é de Friedrich Nietzsche. Cornaro foi um estudioso italiano que publicou um livro de conselhos para uma vida saudável no século XVI. Ele recomendava que a alimentação fosse mínima e, segundo relatos, chegou a comer apenas uma clara de ovo por dia.
Outra frase de Nietzsche: “Ambos, a ciência e o ideal ascético, acham-se no mesmo terreno – já o dei a entender -: na mesma superestimação da verdade, e com isso são necessariamente aliados – de modo que, a serem combatidos; só podemos combatê-los e questioná-los em conjunto. Uma avaliação do ideal ascético conduz inevitavelmente a uma avaliação da ciência: mantenham os olhos e os ouvidos abertos para esse fato”
O ideal ascético é, portanto, uma negação desta vida em prol de uma vida futura, eterna e feliz. Uma proposta obviamente ilusória na visão de mundo ateísta, um nada. Nietzsche conclui: “o homem preferirá ainda querer o nada a nada querer...”
Neste capítulo, o autor relaciona os padrões de alimentação e o status inerente a eles com a validação da produção de conhecimento. Achei interessante quando ele expõe que existiu uma linha de raciocínio que cogitava que o conhecimento poderia ser descorporificado, ou seja, desconectado com a corporeidade de seus produtores, como se a conexão com a esfera corporal diminuísse a validade, importância, pertinência, pureza do conhecimento produzido. Me chamou bastante atenção, na página 250, a culminância da discussão sobre a importância da alimentação no seguinte argumento: “e mesmo que se prometesse uma longa vida para os que corrigissem seus hábitos de dieta: estar vivo é algo grande demais?” Considerei esse argumento genial, porque em geral penso sobre a vida como sendo um questionamento constante de sua pertinência: estar vivo e, durante a vida, trabalhar incansavel e incessantemente em prol dela, é a melhor forma de vivê-la? Para mim, esta foi a questão mais interessante deste capítulo.
ResponderExcluirPOSTANDO PELA EDEL VALY (como sugerido pelo Edu)!
ResponderExcluirEm este Capítulo, Shapin, a partir de elementos simples sobre alimentação e outras figuras simbólicas, apresenta com detalhes até curiosos, estórias relacionadas à corporificação, principalmente ligadas aos filósofos naturais de início da Era Moderna, Robert Boyle, Henry More, Isaac Newton e Henry Cavendish, através de diversos contextos de conhecimento, dos mais antigos até a modernidade tardia.
Inicia com Sócrates, para quem o filósofo é um tipo de pessoa diferente, que consegue liberar sua mente do corpo em um grau maior que os homens comuns: “Se alguma vez viermos a ter conhecimento puro de algo, temos que nos livrar do corpo e contemplar as coisas em si mesmas com a alma em si...Filósofos de verdade fazem do morrer sua profissão”.
Já no Cristianismo, a fome e comida aparecem em inúmeros textos, que expressam a negação das necessidades do corpo para alcançar o conhecimento espiritual.
No Período Moderno, questiona-se como os filósofos antigos viveram e como deveriam viver os sábios modernos. No final do Século XVII, Montaigne manifesta não se ater a regras sobre ingestão de alimentos e somente moderar o consumo segundo a força do apetite; em tanto que Francis Bacon, apreciava os benefícios das dietas leves de outrora, adotando a doutrina de Meio-Termo, sem extremos e conforme os hábitos culturais da época.
É muito interessante como a relação entre a atividade intelectual e a alimentação nestes diferentes períodos, caracterizou-se por um certo estigma sobre a figura do filósofo. Dizia-se que era possível identificar um filósofo por seu aspecto corpóreo, sua forma de vida, assim como esse aspecto e forma de vida, era uma maneira de se apresentar, os que que pretendiam ser filósofos.
Segundo Shapin, Isaac Newton retratava o filósofo descorporificado e a estória de separação da mente, entregue à verdade pela sua abstinência à comida.
O autor observa, que a descorporificação não é um padrão dominante dos filósofos. Filósofos da modernidade analisam, interpretam e rejeitam a ideia de descorporificação como condição para produzir e reconhecer a verdade. O próprio Hume, no século XVIII, foge ao que poderia ser considerado um padrão.
Todas as estória que falam sobre os “corpos filosóficos” sejam ou não reais, servem como testemunhos da constituição de corpos em que se pode construir conhecimento, representando normas de conhecimento filosófico e do conhecedor da filosofia.
Na modernidade tardia, a descorporificação vem perdendo sentido e força cultural. Algumas correntes da sociologia afirmam não existir motivo para diferenciar os cientistas dos demais.
HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS E DAS TÉCNICAS E EPISTEMOLOGIA (HCTE)/UFRJ
ResponderExcluirDISCIPLINA LABORATÓRIOS DE ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
PROF. EDUARDO NAZARETH
ALUNO: RAQUEL BELMIRA DA SILVA
Relato apresentação do Capítulo 11: “O Filósofo e a Galinha – Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado”, dia 28/11/2019.
Embora estivesse sem suporte audiovisual, iniciei a apresentação comentando sobre essa parte do livro, que nos remete ao modo de alimentação dos filósofos naturais, scholars, cavalheiros, religiosos, membro da realeza. Na verdade, nos fala da importância da dieta e como era a relação deles com os alimentos. Cita alguns exemplos das preferências de alimentação de alguns filósofos: preferiam alimentos mais leves, magros e em pequena quantidade. Ainda diziam que os “amantes da verdade” negam as demandas do estômago.
Cito um paralelo apresentado por Sócrates, comparando o modo de vida dos filósofos e das cigarras, que cantam e se esquecem de comer e beber e morrem sem perceber. Para Sócrates “filósofos de verdade fazem do morrer sua profissão”. Prof. Eduardo demonstrou seu incômodo com as expressões “amantes da verdade” “filósofos de verdade”, pois o que seriam “filósofos de verdade”? Só os estudiosos e religiosos seriam “amantes da verdade”? Qualquer pessoa que se dedique a estudar algo não poderia ser considerado “amante da verdade”? De fato, vale a reflexão.
Chamei atenção para a observação, do autor, sobre o hábito de Pitágoras e seus seguidores, que incentivavam o vegetarianismo e proibia o consumo de grãos, por consideram que tanto a carne animal, quanto os grãos produziam fluídos nocivos que corrompiam o corpo e o tornava impuro e inadequado para a atividade intelectual.
De um modo geral, o autor nos remete à ideia de moderação. Inclusive, desde os Pré-Socráticos, o conselho era o mesmo: para garantir saúde: moderação. Ambos os extremos: glutonia ou jejum excessivo seriam desastres moral e fisiológico.
Como contraponto, temos Bacon que defendia alguns excessos: “com respeito à quantidade de carne e bebida, ocorre-me que algo de excesso é bom, por vezes, para a irrigação do corpo; portanto, o banquetear imoderado e o beber em quantidade não devem ser de todo proibidos”.
Agradeço a todos que enriqueceram o debate e me ajudaram com a discussão do tema.
“O Filósofo e a Galinha – Sobre a Dietética do Conhecimento Descorporificado”, título irônico e muito bem escolhido para trazer a questão dos atravessamentos culturais e históricos que a ciência “nunca pura” sempre está implicada. A discussão que envolvem diversos discursos que envolvem os sujeitos de ciência e a produção do conhecimento ao longo da história das ciências, deflagram muito dos “misticismos” e “crenças” que percorrem (e muitas vezes persistem a despeito das tentativas de desconstruição de certos dogmatismos) nossa forma de enxergar os atores do mundo científico e a condição de possibilidade de suas produções. O tema da dieta, do jejum, dos sacrifícios pessoais e da renúncia ao mundano com o afastamento dos prazeres da corpo para que o conhecimento genuíno seja produzido, é apenas um dos discursos ainda ancorado no imaginário sobre quem são os "verdadeiros" amantes do saber, sejam filósofos, cientistas ou aqueles que trabalham em nome do saber e que precisam fazer sacrifícios, como se esse conhecimento fosse algo desvinculado do mundo real e do vivido da carne. Esse “conhecimento descorporificado” é algo tão ilusório e improvável, quanto a fantasia de podermos levitar ou atingir o nirvava, ou mesmo o mundo eidético de Platão, com o simples subjugar das paixões do corpo. Mas do que nunca sabemos hoje que tal dicotomia só cabe existir em teorias metafísicas desprovidas da experiência de vida dos seres corporificados; sustentamos hoje que toda produção de ideias ou conhecimento só se dá a partir do metabolismo de nossas vivências no cotidiano!
ResponderExcluirLendo o capítulo 11, Shapin nos faz refletir e analisar a respeito dos hábitos alimentares dos filósofos e religiosos da época, nos remetendo a moderação, onde a mesma induz a compreensão do autocontrole e consequentemente o orgulho da renúncia a vida secular ou mundana, bem como sacrifícios pessoais, isolando-se dos prazeres carnais para ascender o verdadeiro conhecimento dos que se intitulam acima dos mortais como senhores do “Saber”, tais como filósofos, cientistas e religiosos.
ResponderExcluirShapin faz uma narrativa histórica desde o século XVIII sobre a forma como a comida está relacionada com a história. Seja para contar uma anedota, um mito ou até para entender um determinado contexto a comida está sempre presente desde os primórdios.
ResponderExcluirDesde a Bíblia vemos a comida como uma forma de representatividade, seja através de parábolas , de momentos importantes como a Santa Ceia e em cada momento ela possui um significado importante no contexto.
Shapin busca apresentar através de diferentes momentos históricos que a descoporificação vem carregada de uma corporificação que é representada pelo conhecimento que o produz, ou seja, através de diferentes valores, sejam eles locais, sociais , psicológicos, religiosos, etc .
E ainda nos dias de hoje, são inúmeros os debates sobre a dialética comida e conhecimento, pois ela é carregada de controvérsias. Quem nunca descontou toda a sua ansiedade num belo lanche fast food repleto de calorias, gorduras,etc, mesmo t conhecimento sobre o que é bom ou ruim, pois entendemos que isso envolve uma série de fatores que vão além da comida e do conhecimento.
No final das contas, continuamos como os filósofos na busca de entendermos nossas escolhas.