REAÇÃO CAPITULO 1 É a primeira vez que leio Steven Shapin. Durante o mestrado, muito pouco li ou ouvi sobre suas ideias e, como estou no início da leitura, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o próprio título: Nunca pura: estudos históricos da ciência, como se fosse produzida por pessoas com corpos, situadas no tempo, no espaço, na cultura e na sociedade e que se empenham por credibilidade e autoridade. Não conheço Shapin o suficiente para dizer que ele seria um pragmatista ou se ele estaria tentando retratar uma "moderação de tom", uma certa mistura entre filosofia e ciência. Aquela ideia de que a ciência "clássica" seria a verdade endeusada ("A fé pertence ao passado; a Ciência, ao futuro brilhante") por todos está de fato deixando um espaço para histórias da ciências que retratariam uma verdade dependente de um contexto social? Lembro de uma palestra do professor Ivan da Costa Marques, em que ele projetava na tela a passagem de um filme (do qual não lembro o nome), em que o ator principal pergunta para sua pretensa namorada: diga o nome de um objeto, e ela diz, guarda-chuva. O ator então aponta para o céu, e todos nós vemos o guarda-chuva desenhado nas nuvens. Afinal, ali, de fato, tinha um guarda-chuva? A credibilidade estaria baseada em questões sociais com múltiplas formas, afinal, só veria um guarda-chuva quem soubesse o que é um guarda-chuva. Esta transitoriedade da forma me agrada, nada é permanente. Então, será que a verdade e a credibilidade são permanentes? O método científico, o artigo, a palavra, tudo está sujeito a interpretações. Depois que está escrito as palavras não estão mais sob a guarda do autor. Se todos nós vimos um guarda-chuva no céu foi porque havia um consenso social de que aquela forma era de um guarda-chuva, alguém nominou a forma, todos aceitaram e agora identificam a forma como um guarda-chuva. É uma verdade situada, em um tempo específico, a multiplicidade aparecendo de acordo com a transitoriedade da forma. Acho que esta discussão sobre a divisão ontológica entre a ciência e sociedade (e aqui eu quero dizer o "ser" enquanto ser) se arrasta e ao mesmo tempo é um recurso para falar do processo de transição da "escrita" dos historiadores da ciências, como também para trazer para a discussão o processo de mudança e uma análise dos atores e seus conhecimentos situados.
REAÇÃO CAPÍTULO 2 No capítulo 2 Shapin entra na questão do conceito de credibilidade, objetividade e verdade. Afinal o que é a verdade? Comentei sobre a palestra do professor Ivan na reação do capítulo 1, todos acreditamos que a forma era de um guarda-chuva. Um ponto interessante sobre verdade e credibilidade é a indução. Hoje viajo de avião pois eu induzo que ele não vai cair, mas eu não tenho garantia nenhuma que ele não vai cair. Eu viajo pois o fato de o avião voar e da chance de ele cair ser pequena é uma verdade para mim. Eu confio nos procedimentos utilizados para o avião voar, eu me baseio na multiplicidade de testemunhos de pessoas que utilizaram aviões e estão vivas para contar, no ato de que colocar um avião para voar é amplamente replicado e confio nas inscrições e seus porta-vozes que afirmam que a chance de um avião cair é de 1 em 90 milhões (Arnold Barnett, Instituto de Teconologia de Massachussets). Para os mais céticos, existe até um aplicativo que calcula a probabilidade do avião cair (http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2015/02/aplicativo-calcula-chance-de-aviao-cair-ideia-e-reduzir-medo-de-voar.html). Usando as palavras de Shapin (21), "não há limites para considerações que possam ser relevantes para assegurar credibilidade". Shapin traz também neste capítulo a ampla utilização de afirmações já estabilizadas durante o desenvolvimento de uma pesquisa e de seu método científico. Utilizar questões fechadas dentro de seus referenciais, me parece algo muito comum, não somente na ciência. Fico pensando nos enquadramentos realizados para fechar estão questões, no que transbordou e no que ficou de fora. Shapin coloca muito bem a inacessibilidade de um homem comum aos enquadramentos e pesquisas realizadas. É impossível vermos o átomo, então acreditamos no cientista e suas inscrições. Este cientista é alçado a um posto de pessoa "autorizada" para falar do assunto. Assumimos então a conversa como negociação coletiva do conhecimento para lidar com conceitos abstratos e difusos. Uma realidade construída pela forma que nomeamos as "coisas"; construída dentro de um contexto interacional, mas que deixa de fora muitas coisas que poderiam colocar em risco, ou não, a credibilidade do fato.
REAÇÃO CAPITULO 3 Acho que já posso começar a responder a mim mesma se Shapin é ou não um relativista. Começo a pensar que o relativismo dele é metodológico como um exame das ideias que se apresentam durante o estudo. Lembrei da citação que ele fez no capítulo 1, p.2, quando ele diz que o problema não era "a estória de Woody Allen sobre o livro de dieta de Nietzsche versus a seriedade acadêmica adequada". A ideia do profano e o sagrado sobrepostos, a ideia de baixar o tom se coloca clara; o pesquisador, o historiador das ciências deveria considerar todos os diferentes conhecimentos e teorias com simetria em seus estudos. Não existe um método científico universal para se "fazer" ciência. Alias, muito bem colocado por vários professores da linha de pesquisa CTS, o universal é o particular no poder. O entendimento de que historiadores das ciências, ao tentarem colocar outros atores em cena para compreender o desenvolvimento de uma pesquisa, estariam sendo julgados como não cientistas ou anticientíficos fica claro durante o capítulo. Este procedimento é visto como um ataque às ciências. Enquanto isso, no passado, movimentos de alguns cientistas que tentavam se dissociar de experimentos anteriores não eram vistos como anticientistas. Shapin coloca muito bem que toda fala tem um contexto por trás, tirar a frase do contexto pode trazer uma interpretação equivocada. Penso que, apesar de todos sabermos disso, a dificuldade de controlar o que será feito com aquilo que foi falado é muito grande. São muitas associações, mobilizações, agenciamentos para manter algo fechado dentro de uma referência. Voltando ao ponto inicial que nenhuma ciência é exclusiva de uma área de conhecimento específica, tem um ponto neste capítulo que me deixou, após todo o discurso do Shapin até aqui, meio confusa. Ele afirma que existem estudos com qualidade superior e qualidade inferior. Será que ele classifica os estudos como mais superficiais e outros como mais detalhados? Não seriam estudos com óticas diferentes? Ou a escrita visaria alcançar públicos diferentes? Ou seria uma pesquisa situada, para um público situado? No meu entendimento, cientista fala para seus pares, e qualquer coisa fora deste padrão se torna estranho, mesmo para Shapin. Artigos científicos não são para leigos, artigos científicos procuram se estabilizar, procuram virar uma verdade, procuram credibilidade, caso contrário seus laboratórios não recebem verba, não recebem bolsas, ficam invisíveis para a universalidade que almejam.
REAÇÃO AO CAPÍTULO 4 Voltamos a falar da tentativa de universalização e na elitização provocada pelo restrito grupo de cientistas. O preconceito, seja ele qual for, está presente na nossa sociedade, logo excluí-lo de qualquer estudo é um risco. O preconceito faz parte do contexto e movimenta várias ações. Penso nos preconceitos diversos que circulam no meio acadêmico. Recentemente sugeri a um amigo de doutorado, desempregado, sem bolsa, sem recurso, que procurasse um emprego na iniciativa privada, fui olhada com horror como se tivesse falado uma heresia. Segundo ele, como gostaria de continuar na vida acadêmica, trabalhar na iniciativa privada seria como uma traição à academia. Oi? Isso não faz parte do meu universo, confesso que fiquei perplexa e acabei colocando mais um preconceito na minha lista que já não é pequena. Preconceito é preconceito, e têm alguns que a gente nem percebe, não seria diferente entre os cientistas. Shapin levanta alguns tipos de preconceitos em seu texto, atitudes excludentes como a utilização do latim como lingua ofical da ciência (hoje trocado pelo inglês), genêro (cá entre nós, não muito diferente em um BraZil machista - olha meu preconceito se manifestando e generalizando), religião (difícil ver um cientista não pragmático, mas aí vamos voltar a discussão do que é real. Deus é real? Se é real para alguém, será que ele não existe mesmo?), classe social (meritocracia neste BraZil em que o acesso ao estudo é precário é uma piada). Lendo este capítulo, lembrei da dissertação de um amigo onde ele cita uma passagem da vida do educador popular Tião Rocha. Tião conta que na escola, quando começou estudar história toda vez que a professora começava a falar de rainhas e reis, ele tentava contar a história de sua bisavó que havia sido uma rainha de uma comunidade africana antes de ser escravizada e vendida no Brasil. Tião não conseguia passar de um ponto da frase: Professora, minha bisavó era rainha... e a professora mandava imediatamente que ele se calasse. Por diversas vezes ele tentou, por diversas vezes ele foi orientado a se calar. Perdeu a professora, perdemos nós que hoje não conhecemos a história detalhada de nossos antepassados, um estudo situado, que primeiramente interessa a nós, mas ao mesmo tempo uma história que faz parte de outras histórias. Uma história com atores específicos, em um tempo específico, em um enquadramento específico e com todos os transbordamentos possíveis.
REAÇÃO CAPITULO 1
ResponderExcluirÉ a primeira vez que leio Steven Shapin. Durante o mestrado, muito pouco li ou ouvi sobre suas ideias e, como estou no início da leitura, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o próprio título: Nunca pura: estudos históricos da ciência, como se fosse produzida por pessoas com corpos, situadas no tempo, no espaço, na cultura e na sociedade e que se empenham por credibilidade e autoridade. Não conheço Shapin o suficiente para dizer que ele seria um pragmatista ou se ele estaria tentando retratar uma "moderação de tom", uma certa mistura entre filosofia e ciência. Aquela ideia de que a ciência "clássica" seria a verdade endeusada ("A fé pertence ao passado; a Ciência, ao futuro brilhante") por todos está de fato deixando um espaço para histórias da ciências que retratariam uma verdade dependente de um contexto social? Lembro de uma palestra do professor Ivan da Costa Marques, em que ele projetava na tela a passagem de um filme (do qual não lembro o nome), em que o ator principal pergunta para sua pretensa namorada: diga o nome de um objeto, e ela diz, guarda-chuva. O ator então aponta para o céu, e todos nós vemos o guarda-chuva desenhado nas nuvens. Afinal, ali, de fato, tinha um guarda-chuva? A credibilidade estaria baseada em questões sociais com múltiplas formas, afinal, só veria um guarda-chuva quem soubesse o que é um guarda-chuva. Esta transitoriedade da forma me agrada, nada é permanente. Então, será que a verdade e a credibilidade são permanentes? O método científico, o artigo, a palavra, tudo está sujeito a interpretações. Depois que está escrito as palavras não estão mais sob a guarda do autor. Se todos nós vimos um guarda-chuva no céu foi porque havia um consenso social de que aquela forma era de um guarda-chuva, alguém nominou a forma, todos aceitaram e agora identificam a forma como um guarda-chuva. É uma verdade situada, em um tempo específico, a multiplicidade aparecendo de acordo com a transitoriedade da forma. Acho que esta discussão sobre a divisão ontológica entre a ciência e sociedade (e aqui eu quero dizer o "ser" enquanto ser) se arrasta e ao mesmo tempo é um recurso para falar do processo de transição da "escrita" dos historiadores da ciências, como também para trazer para a discussão o processo de mudança e uma análise dos atores e seus conhecimentos situados.
REAÇÃO CAPÍTULO 2
ResponderExcluirNo capítulo 2 Shapin entra na questão do conceito de credibilidade, objetividade e verdade. Afinal o que é a verdade? Comentei sobre a palestra do professor Ivan na reação do capítulo 1, todos acreditamos que a forma era de um guarda-chuva. Um ponto interessante sobre verdade e credibilidade é a indução. Hoje viajo de avião pois eu induzo que ele não vai cair, mas eu não tenho garantia nenhuma que ele não vai cair. Eu viajo pois o fato de o avião voar e da chance de ele cair ser pequena é uma verdade para mim. Eu confio nos procedimentos utilizados para o avião voar, eu me baseio na multiplicidade de testemunhos de pessoas que utilizaram aviões e estão vivas para contar, no ato de que colocar um avião para voar é amplamente replicado e confio nas inscrições e seus porta-vozes que afirmam que a chance de um avião cair é de 1 em 90 milhões (Arnold Barnett, Instituto de Teconologia de Massachussets). Para os mais céticos, existe até um aplicativo que calcula a probabilidade do avião cair (http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2015/02/aplicativo-calcula-chance-de-aviao-cair-ideia-e-reduzir-medo-de-voar.html). Usando as palavras de Shapin (21), "não há limites para considerações que possam ser relevantes para assegurar credibilidade".
Shapin traz também neste capítulo a ampla utilização de afirmações já estabilizadas durante o desenvolvimento de uma pesquisa e de seu método científico. Utilizar questões fechadas dentro de seus referenciais, me parece algo muito comum, não somente na ciência. Fico pensando nos enquadramentos realizados para fechar estão questões, no que transbordou e no que ficou de fora. Shapin coloca muito bem a inacessibilidade de um homem comum aos enquadramentos e pesquisas realizadas. É impossível vermos o átomo, então acreditamos no cientista e suas inscrições. Este cientista é alçado a um posto de pessoa "autorizada" para falar do assunto. Assumimos então a conversa como negociação coletiva do conhecimento para lidar com conceitos abstratos e difusos. Uma realidade construída pela forma que nomeamos as "coisas"; construída dentro de um contexto interacional, mas que deixa de fora muitas coisas que poderiam colocar em risco, ou não, a credibilidade do fato.
REAÇÃO CAPITULO 3
ResponderExcluirAcho que já posso começar a responder a mim mesma se Shapin é ou não um relativista. Começo a pensar que o relativismo dele é metodológico como um exame das ideias que se apresentam durante o estudo. Lembrei da citação que ele fez no capítulo 1, p.2, quando ele diz que o problema não era "a estória de Woody Allen sobre o livro de dieta de Nietzsche versus a seriedade acadêmica adequada". A ideia do profano e o sagrado sobrepostos, a ideia de baixar o tom se coloca clara; o pesquisador, o historiador das ciências deveria considerar todos os diferentes conhecimentos e teorias com simetria em seus estudos. Não existe um método científico universal para se "fazer" ciência. Alias, muito bem colocado por vários professores da linha de pesquisa CTS, o universal é o particular no poder. O entendimento de que historiadores das ciências, ao tentarem colocar outros atores em cena para compreender o desenvolvimento de uma pesquisa, estariam sendo julgados como não cientistas ou anticientíficos fica claro durante o capítulo. Este procedimento é visto como um ataque às ciências. Enquanto isso, no passado, movimentos de alguns cientistas que tentavam se dissociar de experimentos anteriores não eram vistos como anticientistas. Shapin coloca muito bem que toda fala tem um contexto por trás, tirar a frase do contexto pode trazer uma interpretação equivocada. Penso que, apesar de todos sabermos disso, a dificuldade de controlar o que será feito com aquilo que foi falado é muito grande. São muitas associações, mobilizações, agenciamentos para manter algo fechado dentro de uma referência.
Voltando ao ponto inicial que nenhuma ciência é exclusiva de uma área de conhecimento específica, tem um ponto neste capítulo que me deixou, após todo o discurso do Shapin até aqui, meio confusa. Ele afirma que existem estudos com qualidade superior e qualidade inferior. Será que ele classifica os estudos como mais superficiais e outros como mais detalhados? Não seriam estudos com óticas diferentes? Ou a escrita visaria alcançar públicos diferentes? Ou seria uma pesquisa situada, para um público situado? No meu entendimento, cientista fala para seus pares, e qualquer coisa fora deste padrão se torna estranho, mesmo para Shapin. Artigos científicos não são para leigos, artigos científicos procuram se estabilizar, procuram virar uma verdade, procuram credibilidade, caso contrário seus laboratórios não recebem verba, não recebem bolsas, ficam invisíveis para a universalidade que almejam.
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ResponderExcluirREAÇÃO AO CAPÍTULO 4
ResponderExcluirVoltamos a falar da tentativa de universalização e na elitização provocada pelo restrito grupo de cientistas. O preconceito, seja ele qual for, está presente na nossa sociedade, logo excluí-lo de qualquer estudo é um risco. O preconceito faz parte do contexto e movimenta várias ações. Penso nos preconceitos diversos que circulam no meio acadêmico. Recentemente sugeri a um amigo de doutorado, desempregado, sem bolsa, sem recurso, que procurasse um emprego na iniciativa privada, fui olhada com horror como se tivesse falado uma heresia. Segundo ele, como gostaria de continuar na vida acadêmica, trabalhar na iniciativa privada seria como uma traição à academia. Oi? Isso não faz parte do meu universo, confesso que fiquei perplexa e acabei colocando mais um preconceito na minha lista que já não é pequena. Preconceito é preconceito, e têm alguns que a gente nem percebe, não seria diferente entre os cientistas. Shapin levanta alguns tipos de preconceitos em seu texto, atitudes excludentes como a utilização do latim como lingua ofical da ciência (hoje trocado pelo inglês), genêro (cá entre nós, não muito diferente em um BraZil machista - olha meu preconceito se manifestando e generalizando), religião (difícil ver um cientista não pragmático, mas aí vamos voltar a discussão do que é real. Deus é real? Se é real para alguém, será que ele não existe mesmo?), classe social (meritocracia neste BraZil em que o acesso ao estudo é precário é uma piada).
Lendo este capítulo, lembrei da dissertação de um amigo onde ele cita uma passagem da vida do educador popular Tião Rocha. Tião conta que na escola, quando começou estudar história toda vez que a professora começava a falar de rainhas e reis, ele tentava contar a história de sua bisavó que havia sido uma rainha de uma comunidade africana antes de ser escravizada e vendida no Brasil. Tião não conseguia passar de um ponto da frase: Professora, minha bisavó era rainha... e a professora mandava imediatamente que ele se calasse. Por diversas vezes ele tentou, por diversas vezes ele foi orientado a se calar. Perdeu a professora, perdemos nós que hoje não conhecemos a história detalhada de nossos antepassados, um estudo situado, que primeiramente interessa a nós, mas ao mesmo tempo uma história que faz parte de outras histórias. Uma história com atores específicos, em um tempo específico, em um enquadramento específico e com todos os transbordamentos possíveis.